querer
de quereres eu
entendo
e se contigo
não há contento
busco em outro colo
o querer do impulso
o querer do despudor
a dor
e o ar-dor
quero o querer
o insaciável
quero o indelével
desejo
cada vez que não te vejo
penso:
agora sim, arejo
escolha
multiplicam-se as formas
do outro
cópias arranjadas
amálgama
amar-se-ia menos
alguém escolhido
a dedo?
por tesão ou medo?
palavra
a palavra que
aquece
sarja feridas
estanca o sangue
escolhas
des
feitas
quando os olhos
urgem ausência
a chaga
abre
não sei sofrer
por isso
escolho a poesia
para gritar em
silêncio
protesto mudo
e nem por isso
menos mordaz
a palavra que
esfria
(fecho os olhos)
e cura.
ato encerrado
cai o pano
ato encerrado
verdades desarmadas
consciência oblíqua
na lente embaçada
cortina no chão
a luz é solo
mão e pé
repetem o refrão
contagem marcada
palco a meio caminho
da solidão
só quando arrisco
a poesia em mim
salta
e se pouco ou nada
falta
perco as contas
de cada lampejo
de cada suspiro que
arremata o desejo de
tecer armadilhas
e dançar com minhas
sapatilhas de ponta
sobre a tua audácia
mesmo que ela esconda
a vontade da carícia
arrisco a malícia
do olhar para
me fazer de conta
no teu colar
depois do carnaval
o tempo contado
minuto a minuto
passa arrastado
invento artimanhas
enfeito minhas tranças
coloco a saia mais bonita
rodo os ponteiros
e faço do agora
fevereiro
meu samba começa
depois do carnaval
outro lado
procuro
vício desmedido
por todos os
cantos
assumo
prazer reprimido
traço contido
na minha latência
sem elegância
vasculho o lixo
mendiga de minha existência
agora me diga
me fale
onde deixei
onde perdi
a minha ausência?
apenas
de você quero apenas
coisas boas
beber teu riso
sem compromisso
lembrar teu nome
quando acordar
e se possível
levantar antes
de você quero apenas
não guardar qualquer
memória
invisível
abra os olhos
sobre meus segredos
desvenda
a charada que corrói
a chaga presente
no meu estupor
e sangra e urge
não o curativo
remendo da alma
não o laço desfeito
intempérie ativa
atiça e atrai
sem mistério
ou segredo
não sou esfinge
motivos de decifrar
gota d’água
estopim
se todos forem reais
a droga que falta
oprime
a dor invisível
eu devoro
fundo
vou te dizer um
negócio, seu moço
quem come a carne
rói o osso
e deixe desse seu
alvoroço
porque a vida
só tira o que dá
e se ela dá
um pouco
logo tira também
o troco
e o que sobra é o
rasgo
o remendo
o estrago
simples
pode falar
minhas mãos estão aqui
para te seguir
solene
simples
e delicadamente
meu silêncio te constrange
e teu carinho me reprime
diga lá
bem aqui
será?
quem vai saber?
dúvida
vou escrever
que tua dúvida me calou
e disso tenho certeza
tanta incerteza
escondida atrás da porta
espalmou as mãos
fechou as bocas
acalmou o querer
e depois não pergunte
apenas leia meu silêncio
e ouça meus olhos dizendo
sim, é tarde.
candeia
essa luz que me passeia
candeia dos teus olhos
incendeia os sentidos
e queima, brasa ardente
quando sussurra ao meu ouvido
me concentro no teu som
gemido
teu choro rimando música
o resto tudo pra mim
é ruído
déjà vu
baixo botafogo
quando percebo
esse lugar
cada centímetro vasculhado
pela minha
lembrança
me dou conta
que a rua não me
pertence
e nem a ti
quando percebo que
cada marca
foi apenas o
instante
e não durou após
a chuva
vermelho
e quando estiver pronta
apago teu nome do espelho
cubro meus lábios
de vermelho
e saio para me
encontrar
de novo
no meio dessas ruas
no meio da noite
tua
Desdita
Destilo minha acidez
Irascível
Cometo as maiores
Atrocidades
Em partes
À parte de tudo
Me calo
Consinto tua aridez
e reprovo todos
os dados que me levem
a hipóteses
malditas
desditas
desando por
sobre minha certeza
sobre células
telepáticas
caóticas
confusas
minha cabeça
e a da medusa
se entendem
nessa ânsia de
sonhar
o sempre
o novo
sempre
Fuga
quando escrevo
saro
quando calo
desconverso
quando me consinto
respiro
quando contrasenso
desabo
quando resvalo
confesso
quando bebo
(re)tinto
quando distraio
sou pego
quando desisto
me cego
quando atraio
me sinto
algo cativo
-não quero
piano
às vezes dói
sentir toda essa música
presa no peito
às vezes dói
perceber que os dedos
não acompanham
a melodia da
minha cabeça
então escrevo
faço música
com os olhos
dedilhando fantasias
com a mão
inerte
sobre o piano
e
mesmo assim
muitas vezes
dói
silêncio.
retalho
se rememoro
o que desejo
encho minha existência
de retalhos
minha história
remete ao cotejo
do que sou
e do que almejo
se prossigo
ou estanco
errante
a certeza é
nunca pego um
atalho
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