a hora mais bonita
quando teu abraço
e teu calor
do meu corpo fazem morada
a hora mais bonita do dia:
tua chegada
quando minhas mãos
inscrevem caminhos
no teu corpo:
mapa
quando tua cantiga
voz
sussurra ao pé do ouvido
a hora mais bonita do dia:
eu em você
abrigo
andarilho
meu corpo vadio
sem dono
sem sono
ruma pra destino
(in)certo
teu corpo
meu dono
resvala o sono
desvia a razão que paira
decerto
teu corpo
meu corpo
insólitos andarilhos
um do outro
voz
a voz emudece palavras
a voz
afobada
tropeça nas sílabas
de uma vida estanque
a voz estanca
abafada
a voz não é ação
a voz projeta promete
critica jura
a voz perjura
em vão
a voz envelhece
a voz fica rouca e embargada
a voz esta noite
seca
rouca
embriagada
voz que é voz
nem muda
se cala
calor
Me deito
Lado a lado
Com teu peito arfante
Lábios e línguas ávidos
Caminho rumo prumo
Proa diletante
Me faço lua
Cheia
Pra inundar a escuridão do quarto
E dispo
Peça por peça
As artimanhas e os percalços
Pra fazer minguar o desejo
Depois do cio
Calor e cansaço
história
então
nosso amor se fez sob medida
no meio de tantas vindas
e idas
o que era só meu
o que era só teu
a pele
os pelos
os teus e os meus apelos
tudo se fez nosso
o corpo
os corpos
(debaixo desse tempo que passa:
as horas os dias
a cantiga do teu olhar
me abraça)
muro
perdi o fôlego
a voz e a vez
tateei no escuro
sem conseguir enxergar
me entreguei a uma languidez
apenas externa
mas não valeu a pena
a exata ternura que procuro
caminha sobre os cacos
do muro
descalça
pele
a pele calejada
filtro perene de emoções
a vista turva
a lágrima barata
vadia
escorrendo aos turbilhões
um não saber
o meio termo
um passo em falso
mãos tateando
a esmo
olhos como barcos
à deriva
no espelho preso
sono
ópio para a dor
reflexo da imagem
cativa
protesto
no meio de tantos protestos
o coração
o peito nu
o corpo nu
no meio de tantos protestos
o corpo pede por uma rendição
o corpo pede pra perder a luta
que emana da vontade de outro corpo
o corpo quer perder a guerra
quer paz
e quer ter razão
o corpo não quer ser feliz com a mentira
doce sussurro no pé do ouvido
condição da batalha
já quase vencida
o corpo só quer
gozar de pé no quarto na cama
rés do chão
o corpo que lançou um grito no meio da passeata
galgou o espaço
se fez cansaço
se transformou em suspiro
ansiou o gemido
no meio da noite
o corpo acolheu no peito a cabeça amada
fez do cobertor sua bandeira
e fez amor.
a noite me pesa sobre os olhos
a noite se encerra sobre meu coração
a noite não silencia o sibilar
da serpente traiçoeira
a noite traz o veneno
a noite aguça meus sentidos vitais
quando eles deveriam dormir
a noite me constrange
e me empurra para o canto da parede
a noite faz raiar meus medos
a noite sou eu
a água do rio me tornou doce
firme nas ideias
pés – raízes plantadas no chão
a água me empurra e me dissolve
assim como a água
sou toda líquida
e trago em mim cardumes
de pensamentos inacessíveis
mas um terço do que sou
tem o sabor do sal
e as profundezas
do que não vejo
nem compreendo
pertencem a uma parte de mim
assim
abissal
resolvi sair detrás dos passarinhos
e das bonecas que sangram
mas não deixei de assoviar a melodia triste
nem deixei de sangrar
aqui por dentro
resolvi mostrar estes olhos
e um pouco do que deixei pra trás
resolvi não contar mais
histórias de ninar
histórias do acaso cego
em que me deixei encontrar
agora aqui está minha face
tripudiada por vontade própria
mas não com pouco sofrer
aqui está minha face
olhos cegos ventania
um passo em falso
no abismo do querer
monstro
sua palavra me feriu
e sua não-palavra também
ver tua felicidade
fingir que tudo continua
essa tua ignorância de mim
e atitudes tão banais
cada máscara
ressoava vertigem de algo mais
não te soube compreender
deformei minha face
fazendo perguntas sem respostas
galgando muros intransponíveis
até virar o monstro
hipocrisia da falsa expiação
o sofrimento eterno
para o gelo em que se transformou
a lava do vulcão
café
meu café é regado a palavras
nem sempre doces
nem sempre quentes e fortes
mas vivas e sedentas
meu café te convida para dançar
no palco com luzes apagadas
da minha consciência
meu café tira o sono
e turva a placidez da memória
desfecho do roteiro noturno
silenciosa trilha sonora
que vaga a ermo
pela poesia deserta
por esta viela
veia que singra e sangra
aberta
mal-criada
quero enfeitar teus cabelos com minhas mãos
e sacudir tua sanidade
com algumas palavras ao pé do ouvido
quero arranhar tuas costas
com força
só pelo prazer de ouvir teu gemido
quero te fazer querer
quero te fazer não pensar
quero usar todas as máscaras
pra enfeitar as partes de mim
que você não conhece
e escrever poemas no teu dorso
pensando bem
só quero isso
e em troca fica com o meu ar blasè
pra tua cara de bom moço
raro
é triste não ter histórias pra contar
e ter vivido de tudo um quase
ultimamente
venho me sentindo meio estranha
mas não gosto
não quero
e tomo banhos de chuva
continuamente
paro no meio de tantos sons
cores pessoas e sorrisos
sem deleite
a verdade oscila
e eu imóvel só quero fechar os olhos
pro resto de luz que sacaneia
meu sono
tão raro
em algum lugar aqui dentro
há uma menina que não cresceu
e vive doendo
em algum lugar aqui dentro
sobrevive escondida
atrás de tons pasteis e caramelo
esperando pela despedida
de tudo o que poderia ter sido
e não foi
em algum lugar aqui dentro
há confetes e serpentinas
há um baile sem máscaras
há a promessa da fantasia
há a oculta lágrima de cor carmim
em algum lugar aqui dentro
ainda há a promessa da bailarina
que vivia na ponta dos dedos
e agora na ponta do lápis
escreve a esmo
tentando desvendar o segredo
do mundo que inventou
para si
encruzilhada
te fiz poemas
sem pressa de dizer adeus
mas sabendo que esse dia iria chegar
derramei lágrimas antes da chuva
lavar a tristeza da varanda
coloquei uma roupa nova
me fiz bonita
e saí sem rumo
até que a encruzilhada
exigiu uma despedida
olhei o caminho
tortuosa estrada
entre as montanhas
decidi voltar por onde vinha
sem pressa
sem passos largos
sem a pose altiva e decidida
busquei o caminho de casa
o ponto de início
de todas as partidas
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