absurdo
absurdo é se conter
nessa subida sem fim
é contar migalhas e dar de um por um
amor tão bonito assim
mas nessa subida toda
o que eu quero é lá em cima ver
uma rede atada
esperando nossa chegada
- vem, meu bem, ficar junto de mim
bodas de palavra
Há que se ter números
Para contar
Três vezes sempre
O resultado é
O tempo de quem sente
Tem gente que
Conta algodão
Papel, linho
E as pedras do caminho
Tem gente que
Conta metal
Prata, diamante
Mas tem gente
Que é só amante
E conta
Palavras
araçá
agosto é a época do araçá
é a época da chuva
da praia escondida pelo rio
mas em julho
meu amor encontrou teu cio
e a nossa vontade
que vinha de tempos
se arrumou em um momento
e nem chuva nem vento
nem sol nem claridade
de novembro
qualquer banalidade
ou a provável saudade
que iriamos sentir
não ousou diminuir
a ternura o chamego
o amor o sossego
que o colo um do outro traz
daí então daremos conta
que não depende de tempo ou rota
aquela vontade sempre vai bater
na minha ou na tua porta
cheirando araçá
trazendo pro meu canto o norte
e levando norte
pra todos os cantos
de lá
espasmo
Ela experimentou
E gozou em bocas mais ácidas
Do que jamais conheceu
Mesmo com o rubro sobre a face
E sobre os lábios
Lividamente
Durante o espasmo
estremeceu
Não contou e nem pode conter
Outras bocas, mais torpes e
menos confusas
Sobre o que nem era seu
E gozou em bocas mais ácidas
Do que jamais conheceu
Mesmo com o rubro sobre a face
E sobre os lábios
Lividamente
Durante o espasmo
estremeceu
Não contou e nem pode conter
Outras bocas, mais torpes e
menos confusas
Sobre o que nem era seu
letargia
cada resposta cabe num vácuo
a ausência anseia falar
cada resposta é um presságio
do que se quer
ou se tem
para dar
cada resposta oblíqua
vaga a mente
dissipa e dissolve
etílica
cada resposta limpa
é suja
e não surge: some
tira sarro
do medo ou do escarro
fagulha
irmã da letargia e do descaso
ímã da covardia anônima
filha
da puta
cura
Com uma mão arregaço as saias
Com a outra
Puxo teus cabelos
Embriago meus dedos
Cheiro teus apelos
Com um olho te desnudo
Com o outro te descubro
E encubro meu desvelo
Com uma perna te enrosco
E vou chegando perto assim
Me encosto no teu canto
E canto parcas notas enfim
Com a voz embargada
Trago uma saudade
Arrastada
Do dia que você iria querer
Só a mim
receita
ingredientes
um pedaço de mim
uma metade de você
modo de preparo
me derramo na tua vida
sem dó de ser doce
sem reservar
e sem passar pela peneira
pego todas as tuas eiras
e beiras
misturo com as minhas
pego todas as maneiras
de ser feliz o bastante
misturo com a vontade de ti
constante
e cuido pra que nem o tempo
nem o vento
levem migalha ou pedaço
nem tornem frios
o que hoje fazemos ávido
sem prever o fim
provo da parte de mim
que se sabe tua
não acrescento nada: o corpo já sabe onde fica
sua morada
na inteireza do nosso amor
hoje
trago duas partes
e me faço
meio sem medida
sem a tua metade
um pedaço de mim
uma metade de você
modo de preparo
me derramo na tua vida
sem dó de ser doce
sem reservar
e sem passar pela peneira
pego todas as tuas eiras
e beiras
misturo com as minhas
pego todas as maneiras
de ser feliz o bastante
misturo com a vontade de ti
constante
e cuido pra que nem o tempo
nem o vento
levem migalha ou pedaço
nem tornem frios
o que hoje fazemos ávido
sem prever o fim
provo da parte de mim
que se sabe tua
não acrescento nada: o corpo já sabe onde fica
sua morada
na inteireza do nosso amor
hoje
trago duas partes
e me faço
meio sem medida
sem a tua metade
corpo adentro
experimento
um a um
todos os sentimentos
o que não conheço
invento
corpo adentro
enfrento os maiores dilúvios
decido se e quando
me iludo
dou com a cara
no muro
dou a cara a tapa
pro mundo
e mudo a festa
a fantasia o carnaval
mudo o amor de lugar
a casa a mesa posta
o que resta
não importa
gelo
se digo que não ligo
uma parte de mim esmorece
e não consigo mais
(não contigo)
e perco o gosto do teu gosto
e teu gesto
tato
pois o que não faço
com vontade
e todo ímpeto exagerado
do que acredito verdade
não motiva e nem anima
engasgo
a frieza e indiferença
de mim não fazem parte
uma e outra
aqueço no rol dos apelos
descarto
jazigo de maus presságios
quando teu corpo
se contenta com o meu
morno
não faço alarde
desfaço o querer dos olhos
pela metade
se é pra ser gelo
ou tranquilo
sei o que de fato quero:
nem isto nem aquilo
é preciso de um tempo
pra discernir com clareza
a real natureza
do sentimento
a agrura ou alegria
a felicidade ou tormento
do que se vive
varia
a dor da incerteza
o ardor do tesão
a espera:
talheres
postos sobre a mesa
a noite
fria sobre o colchão
de tudo e para tudo
se pede ao tempo:
-tempo
sobre ti recai a decisão
se amadurece
e espera colher
ou se maduro
cai
e apodrece
no chão
a hora mais bonita
quando teu abraço
e teu calor
do meu corpo fazem morada
a hora mais bonita do dia:
tua chegada
quando minhas mãos
inscrevem caminhos
no teu corpo:
mapa
quando tua cantiga
voz
sussurra ao pé do ouvido
a hora mais bonita do dia:
eu em você
abrigo
andarilho
meu corpo vadio
sem dono
sem sono
ruma pra destino
(in)certo
teu corpo
meu dono
resvala o sono
desvia a razão que paira
decerto
teu corpo
meu corpo
insólitos andarilhos
um do outro
voz
a voz emudece palavras
a voz
afobada
tropeça nas sílabas
de uma vida estanque
a voz estanca
abafada
a voz não é ação
a voz projeta promete
critica jura
a voz perjura
em vão
a voz envelhece
a voz fica rouca e embargada
a voz esta noite
seca
rouca
embriagada
voz que é voz
nem muda
se cala
calor
Me deito
Lado a lado
Com teu peito arfante
Lábios e línguas ávidos
Caminho rumo prumo
Proa diletante
Me faço lua
Cheia
Pra inundar a escuridão do quarto
E dispo
Peça por peça
As artimanhas e os percalços
Pra fazer minguar o desejo
Depois do cio
Calor e cansaço
história
então
nosso amor se fez sob medida
no meio de tantas vindas
e idas
o que era só meu
o que era só teu
a pele
os pelos
os teus e os meus apelos
tudo se fez nosso
o corpo
os corpos
(debaixo desse tempo que passa:
as horas os dias
a cantiga do teu olhar
me abraça)
muro
perdi o fôlego
a voz e a vez
tateei no escuro
sem conseguir enxergar
me entreguei a uma languidez
apenas externa
mas não valeu a pena
a exata ternura que procuro
caminha sobre os cacos
do muro
descalça
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