te escrevi alguns poemas
e desenhei palavras no teu corpo
moço
desejei lê-las enquanto dormias
mas contive a vontade e apenas olhei
teu dorso

teu cheiro e ressonar suave
a pele branca prenhe
de desejo
nossa história inconclusa
a caminhar para um rumo
que não vejo

mas não vendo e mesmo assim
sentindo
acendo uma vela para o que almejo
duas mãos dois braços dados uma viagem
um só caminho e nós dois
seguindo






* imagem: quadro de Dali.

vestígios


Catei os vestígios da estrada
Retirei as migalhas do caminho
Sem deixar traço ou palavra
Arranquei todos os espinhos
Cuspi sobre a palavra malfadada
Rasguei a letra não dita
Ocultei o signo digitado
Da mensagem pretendida

Sobre ocultos dizeres
Nem o maior de todos
Os prazeres
Restou na despedida

oriente


e porque hoje estou assim
roendo a saudade pelas beiras
desfazendo o querer
do que o corpo anseia:
peles, mãos, braços
noite de lua cheia
o suor, a estrada sem fim
caminhos, ruas
tortuosa vontade de chegar o dia
e trazer o teu oriente
pra perto de mim

Pra alegrar teu coração
Fiz um guizado
Com bastante tempero
Batata, cenoura e do verde
O cheiro

Cheio de carinho
Me trouxeste ao teu ninho
Para um tambaqui
Assado sem pressa

E eu: a presa
Entre pimentas e tesão
Amor ao pé do fogão

absurdo


absurdo é se conter
nessa subida sem fim
é contar migalhas e dar de um por um
amor tão bonito assim
mas nessa subida toda
o que eu quero é lá em cima ver
uma rede atada
esperando nossa chegada
- vem, meu bem, ficar junto de mim

bodas de palavra


Há que se ter números
Para contar
Três vezes sempre
O resultado é
O tempo de quem sente
Tem gente que
Conta algodão
Papel, linho
E as pedras do caminho
Tem gente que
Conta metal
Prata, diamante
Mas tem gente
Que é só amante
E conta
Palavras

araçá


agosto é a época do araçá
é a época da chuva
da praia escondida pelo rio
mas em julho
meu amor encontrou teu cio

e a nossa vontade
que vinha de tempos
se arrumou em um momento
e nem chuva nem vento
nem sol nem claridade
de novembro

qualquer banalidade
ou a provável saudade
que iriamos sentir
não ousou diminuir
a ternura o chamego
o amor o sossego
que o colo um do outro traz

daí então daremos conta
que não depende de tempo ou rota
aquela vontade sempre vai bater
na minha ou na tua porta
cheirando araçá
trazendo pro meu canto o norte
e levando norte
pra todos os cantos
de lá

espasmo

Ela experimentou
E gozou em bocas mais ácidas
Do que jamais conheceu
Mesmo com o rubro sobre a face
E sobre os lábios
Lividamente
Durante o espasmo
estremeceu
Não contou e nem pode conter
Outras bocas, mais torpes e
menos confusas
Sobre o que nem era seu

o que se arrasta do limbo
embola e engana
confunde seda e linho
corrói a chaga
contorce as entranhas

o que vem do nada
é chaga
tumor que ora chega e mata

o que vem do nada
volta
pro nada de onde partiu
a ferida, veia seca antes rubra
agora anil

letargia


cada resposta cabe num vácuo
a ausência anseia falar
cada resposta é um presságio
do que se quer
ou se tem
para dar

cada resposta oblíqua
vaga a mente
dissipa e dissolve
etílica

cada resposta limpa
é suja
e não surge: some
tira sarro
do medo ou do escarro

fagulha
irmã da letargia e do descaso
ímã da covardia anônima
filha
da puta

cura


Com uma mão arregaço as saias
Com a outra
Puxo teus cabelos
Embriago meus dedos
Cheiro teus apelos

Com um olho te desnudo
Com o outro te descubro
E encubro meu desvelo

Com uma perna te enrosco
E vou chegando perto assim
Me encosto no teu canto
E canto parcas notas enfim

Com a voz embargada
Trago uma saudade
Arrastada
Do dia que você iria querer
Só a mim

receita

ingredientes
um pedaço de mim
uma metade de você

modo de preparo
me derramo na tua vida
sem dó de ser doce
sem reservar
e sem passar pela peneira

pego todas as tuas eiras
e beiras
misturo com as minhas
pego todas as maneiras
de ser feliz o bastante
misturo com a vontade de ti
constante

e cuido pra que nem o tempo
nem o vento
levem migalha ou pedaço
nem tornem frios
o que hoje fazemos ávido

sem prever o fim
provo da parte de mim
que se sabe tua
não acrescento nada: o corpo já sabe onde fica
sua morada

na inteireza do nosso amor
hoje
trago duas partes
e me faço
meio sem medida
sem a tua metade


quando sobram coisas
e falta vontade
que ainda no peito bate
e dói
eu digo: mais tarde
e tarde em fazer
e tarde em chorar
e tarde o amor veio dizer
não dá.

corpo adentro


experimento
um a um
todos os sentimentos
o que não conheço
invento

corpo adentro
enfrento os maiores dilúvios
decido se e quando
me iludo

dou com a cara
no muro
dou a cara a tapa
pro mundo

e mudo a festa
a fantasia o carnaval
mudo o amor de lugar
a casa a mesa posta

o que resta
não importa

gelo


se digo que não ligo
uma parte de mim esmorece
e não consigo mais
(não contigo)
e perco o gosto do teu gosto
e teu gesto
tato

pois o que não faço
com vontade
e todo ímpeto exagerado
do que acredito verdade
não motiva e nem anima
engasgo

a frieza e indiferença
de mim não fazem parte
uma e outra
aqueço no rol dos apelos
descarto
jazigo de maus presságios

quando teu corpo
se contenta com o meu
morno
não faço alarde
desfaço o querer dos olhos
pela metade

se é pra ser gelo
ou tranquilo
sei o que de fato quero:
nem isto nem aquilo


é preciso de um tempo
pra discernir com clareza
a real natureza
do sentimento

a agrura ou alegria
a felicidade ou tormento
do que se vive
varia

a dor da incerteza
o ardor do tesão
a espera:
talheres
postos sobre a mesa
a noite
fria sobre o colchão

de tudo e para tudo
se pede ao tempo:
-tempo
sobre ti recai a decisão

se amadurece
e espera colher
ou se maduro
cai
e apodrece
no chão

a hora mais bonita


quando teu abraço
e teu calor
do meu corpo fazem morada
a hora mais bonita do dia:
tua chegada

quando minhas mãos
inscrevem caminhos
no teu corpo:
mapa

quando tua cantiga
voz
sussurra ao pé do ouvido
a hora mais bonita do dia:
eu em você
abrigo

andarilho


meu corpo vadio
sem dono
sem sono
ruma pra destino
(in)certo

teu corpo
meu dono
resvala o sono
desvia a razão que paira
decerto

teu corpo
meu corpo
insólitos andarilhos
um do outro

voz


a voz emudece palavras
a voz
afobada
tropeça nas sílabas
de uma vida estanque
a voz estanca
abafada

a voz não é ação
a voz projeta promete
critica jura
a voz perjura
em vão

a voz envelhece
a voz fica rouca e embargada
a voz esta noite
seca
rouca
embriagada

voz que é voz
nem muda
se cala