algoz
tua noite cerrou meus
olhos
e mãos silenciosas
cobriram meus cabelos
o cheiro que sempre
conheci
me sorriu
e pude ver teu
pensamento
vagando
ao lado das minhas
incertezas
lembranças reais ou não
vividas
chegaram com a luz do
dia
mas a claridade que
vinha era
de dentro:
ouro sobre azul
de resto o que fica é
memória
(intangível algoz de
noites insones)
que tenta decifrar tua
história
em mim
ou algo que ficou de
olhar
de cheiro
da tua pele
marfim
Hoje eu sou aquela música triste
Triste
Hoje eu sou apenas um corpo cansado e triste
Hoje meus olhos não querem abrir
Meus braços se fecham ao redor do meu corpo
Hoje sou só dor, a minha e a do mundo
O silêncio pulsa
Minha vida é muito pequena
O fim é grande:
e eu ainda vou ter que existir.
*Imagem: Dalí - Alice
indolente
sinto seu cheiro
escapando pela porta entreaberta
sinto tantos caminhos
tantos sentimentos
meu peito e esta cama
deserta
pressinto passos disfarçados
quebrando galhos
amassando folhas secas
na calçada
pressinto
o espasmo de dois corpos
desunos pelo amor
- este indolente
o que era teu:
tão somente eu
de ti
ausente
*imagem de Benjamin Lacombe.
parece que tudo que escrevo
foi dito por alguém
e ressoa
eco de palavras que não falo
o corpo inocente
tenta
mecanicamente
produzir um som
balbucio torpe
não há geometria
não há latim
parcos são os recursos:
memória, tom, dom
não há sentimento
não há emoção
só o peso da mortalha
voz
vazia
pairando no chão
Ilustração de Lisbeth Zwerger
Existem razões para o luto
Existe o abandonar da vida o corpo
Existe o sofrer sem dor
Existe o olhar vazio dizendo amor
Existe o homem descarnado
Escorrendo líquido pela vida
Existe o homem de tez altiva
Sustentando mentira e indecisão
Existe no meio do sim, a negação
Existe a certeza também
De se ter sempre dúvida pela frente
Existe no meio do rio correnteza
Dessas de levar e lavar a alma da gente
Existe este chão. Água de beber e banhar.
Existe sim,
Mas nunca fui tão ar.
tenho medo de não ser suficiente
e nadar eternamente
atrás dos cardumes
tenho medo do costume
de me perder na corrente
e achar que a vida
só se anda pra frente
frente
frente
quero andar pra trás
dar meia volta
seguir pelos cantos
ou distraída
simplesmente
quero não ter medo
quero vento
quero alento
quero dar voltas
ao redor do céu
e com os pés vagar
o firmamento
Imagem de Catrin Stein
Mormaço
Tem gente que me acha louca
Varrida, pá virada, cara a tapa, cara no chão
Mas tem gente que me tem tesão
Tem gente que me acha triste e manda ser feliz:
vai fazer exercício, dieta, viajar, virar a página e seguir adiante
Mas tem gente que me acha radiante
Tem gente que me acha chata
Estressada, irritada, irritante, cheia de problemas
Mas tem gente que até me faz poema
Tem gente que me acha exagerada
se irrita com meus ataques, xiliques, TPM e tiques
Tem gente que não se importa comigo
Mas tem gente que me faz abrigo
Tem gente que me faz rir, e eu não quero
Tem gente que me faz chorar e eu espero
Mas tem gente que é só ombro, colo, mãos e abraço
Tem gente que é floresta
Eu sou mormaço
Imagem de Benjamin Lacombe
te escrevi alguns poemas
e desenhei palavras no teu corpo
moço
desejei lê-las enquanto dormias
mas contive a vontade e apenas olhei
teu dorso
teu cheiro e ressonar suave
a pele branca prenhe
de desejo
nossa história inconclusa
a caminhar para um rumo
que não vejo
mas não vendo e mesmo assim
sentindo
acendo uma vela para o que almejo
duas mãos dois braços dados uma viagem
um só caminho e nós dois
seguindo
* imagem: quadro de Dali.
vestígios
Catei os vestígios da estrada
Retirei as migalhas do caminho
Sem deixar traço ou palavra
Arranquei todos os espinhos
Cuspi sobre a palavra malfadada
Rasguei a letra não dita
Ocultei o signo digitado
Da mensagem pretendida
Sobre ocultos dizeres
Nem o maior de todos
Os prazeres
Restou na despedida
oriente
e porque hoje estou assim
roendo a saudade pelas beiras
desfazendo o querer
do que o corpo anseia:
peles, mãos, braços
noite de lua cheia
o suor, a estrada sem fim
caminhos, ruas
tortuosa vontade de chegar o dia
e trazer o teu oriente
pra perto de mim
absurdo
absurdo é se conter
nessa subida sem fim
é contar migalhas e dar de um por um
amor tão bonito assim
mas nessa subida toda
o que eu quero é lá em cima ver
uma rede atada
esperando nossa chegada
- vem, meu bem, ficar junto de mim
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