Tem corpo sobre corpo
E pele sobre pele
Tem olho no olho
Âmbar sobre ouro
Tem fome sono sede
E vontade que compele
Tem cama ninho rede
Tem tua voz que embala
E pede
Mais.









Não soube ler teus olhos
Nem a voracidade do teu desapego
Não soube entender teu desatino
Nem tua fome repentina pelo ermo

Não soube conter tua fuga
Nem medir o espaço da despedida
Não soube o tempo exato
Que te fez decidir pela partida

Não soube de tuas chegadas
Nem soube das vezes que disse:
Eu vou - e nunca ia
Não soube ouvir teu silêncio
Quando urgia

E mesmo quando os espaços
Entre os vãos aumentavam
E os retalhos rotos dos nossos corpos anunciavam: fim

Ainda havia algo de destino
Vagando feito verso errante
Como que acordando de
Um sono diletante

Ainda soube dizer a vontade
Que me cabia
Soube ser, querer e estar
Soube ser inteira para completar
Soube ser areia
Para tudo que era mar







*Imagem de Daria Hlatzova.

De longe



Certa vez ouvi tocar
Da rabeca uma canção
Que fez minha mente admirar
E emocionar o coração

Suas notas tão singelas
Sua lapela
Seu condão
Os contrastes evidentes
Entre o som, a rima e o pendão

Nunca mais ouvi um som
Tão pungente
Tão loquaz
Que tirasse da madeira
A matéria capaz
De reviver alegrias e
Tormentos

Na memória jaz
Todo o sentimento
Natureza de sol, ar e vento
Melodia que fez morada
Fez abrigo
Fez estada
No meu alento





*Imagem de Faiza Maghni

Casa




Essa história de uma vida
inteira
Traz coisas pra contar
Algumas menos
Outras mais faceiras
Mas todas constroem
Esta vida
Este corpo: meu lar

De lá pra cá
Coisas outras surgem
Ideias de idas
E vindas
Passagens de outro lugar

As memórias que habitam
Minha casa-corpo
Lembram:
A vida se vive somente
Pelo que há de vir
adiante

Meu futuro, decerto incerto
Começou de mãos dadas
Com a liberdade por perto
Sem medo de voar
Arrisco: me jogo rasante
Contigo
Outros amores seguem
Seu rumo
E deixam a casa limpa
Posto vazio

Pro teu amor morar

Segredo



Me diz a palavra
Que toca teu
Corpo
Me diz a palavra
Que fecha teus
Olhos
Ofusca feito ouro
Me diz a palavra
Que fere tua existência
Me diz qual apelo
Aguça
Qual sinal
Atiça
Qual nome
bagunça tua cabeça
Me diz
Qual pele te enleva
Qual pelo te roça
Me diz qual olho
Te olha mais
Fundo
Me diz o que cabe
(Será que me cabe)
No teu mundo

Metade




Apenas metade do
Que sou
Reside inteiro
Do lado de dentro
Carmim

As outras metades
Me sobram
Pelos cantos côncavos
E convexos
Pousam sobre as teclas do piano
Marfim

Tem metade que jaz
Ociosa
Consciente da completude
Tem metade que foge
(Corajosa)
Para outras latitudes

Tem metade que se fez
Amiga
E buscou consolo amiúde
Tem metade que se fez
Abrigo
Sem pensar no perigo
Que era se doar
Sendo só metade

Mas a metade que guardo
Pitonisa
Insiste e faz alarde
Pra manter
Essa vontade
Absurda
De querer
O mundo afora
Agora
Dentro de mim





*Imagem de Mahlon Craft

Fotografia



Te vejo nos meus anseios
Reflexo de um tempo
Que me trouxe: hoje
Permeio o olhar
Num jogo entre
Luz e sombra
Busco o movimento
Contraste entre passado e
História

Revelo palavras
Segredo escancarado sob
Tua pele: contraste
Sensível exposição
Os olhos escrevem
Imagens fixas de ti
Vejo e te sinto
Memória.




*Imagem de Rackham.

não sei fazer poesia social
não sei transformar o coletivo
na dor por mim
sentida
não sei
falar coisas que agradam
minha palavra sai
feito um cuspe um escarro
não sei ter empatia
não sei
se desaprendi ou nunca soube
mas sei
que antes do que sou hoje
um eu
já houve


*desenho de Mark Ryden




este objeto
que antes era extensão de minhas
mãos
agora parece do corpo um pedaço
amputado

estas palavras
que antes fugiam tão fáceis
agora me soam assim
ventríloqua

estas folhas em branco
que antes bordava ponto a
ponto
com palavras-nós
agora rotas restam e se desfazem

em pó

*desenho de Mark Ryden



afogada em desejos
o respirar
sufoca



Há uma noite
Ardendo fogo
Dentro do peito
Alma da noite
Adentro


imagem: catrin stein
é sol 
do lado de fora
mas dentro
habita uma
frieza
irascível navalha
precisa
atinge
fundo
e tinge
(rubro mudo)
meu mundo



imagem: catrin stein

algoz


tua noite cerrou meus olhos
e mãos silenciosas cobriram meus cabelos

o cheiro que sempre conheci
me sorriu
e pude ver teu pensamento
vagando
ao lado das minhas incertezas

lembranças reais ou não vividas
chegaram com a luz do dia
mas a claridade que vinha era
de dentro:
ouro sobre azul

de resto o que fica é memória
(intangível algoz de noites insones)
que tenta decifrar tua história
em mim
ou algo que ficou de olhar
de cheiro
da tua pele

marfim





















Hoje eu sou aquela música triste
Triste
Hoje eu sou apenas um corpo cansado e triste
Hoje meus olhos não querem abrir
Meus braços se fecham ao redor do meu corpo
Hoje sou só dor, a minha e a do mundo
O silêncio pulsa
Minha vida é muito pequena
O fim é grande:
e eu ainda vou ter que existir.


*Imagem: Dalí - Alice

indolente


sinto seu cheiro
escapando pela porta entreaberta
sinto tantos caminhos
tantos sentimentos
meu peito e esta cama
deserta

pressinto passos disfarçados
quebrando galhos
amassando folhas secas
na calçada
pressinto
o espasmo de dois corpos
desunos pelo amor
- este indolente

o que era teu:
tão somente eu
de ti
ausente



*imagem de Benjamin Lacombe.



por vezes
há ideias pairando
feito nuvens
escassas
impalpáveis

por vezes
há ideias frígidas
esqueleto inamovível
corte obtuso da memória
rasgando esta que sou eu
abismo





*imagem de Thomas Dodd

parece que tudo que escrevo
foi dito por alguém
e ressoa
eco de palavras que não falo

o corpo inocente
tenta
mecanicamente
produzir um som
balbucio torpe

não há geometria
não há latim
parcos são os recursos:
memória, tom, dom

não há sentimento
não há emoção
só o peso da mortalha
voz
vazia
pairando no chão





Ilustração de Lisbeth Zwerger
Teu amor etílico
Tem prazo de validade e fim
Teu amor bêbado
Porta de botequim
Não sobrevive dois minutos
Sóbrio
Se desfaz qual sal
Num copo de gim

Existem razões para o luto
Existe o abandonar da  vida o corpo
Existe o sofrer sem dor
Existe o olhar vazio dizendo amor

Existe o homem descarnado
Escorrendo líquido pela vida
Existe o homem de tez altiva   
Sustentando mentira e indecisão
Existe no meio do sim, a negação

Existe a certeza também
De se ter sempre dúvida pela frente
Existe no meio do rio correnteza
Dessas de levar e lavar a alma da gente

Existe este chão.  Água de beber e banhar.
Existe sim,
Mas nunca fui tão ar.


tenho medo de não ser suficiente
e nadar eternamente
atrás dos cardumes
tenho medo do costume
de me perder na corrente
e achar que a vida
só se anda pra frente
frente
frente

quero andar pra trás
dar meia volta
seguir pelos cantos
ou distraída
simplesmente

quero não ter medo
quero vento
quero alento
quero dar voltas
ao redor do céu
e com os pés vagar
o firmamento






Imagem de Catrin Stein