paz




quando a paz
sai assim
de dentro
fica até difícil
explicar porque a
maioria das vezes
fecho os olhos
e digo pra ela:
passe, passe...

torpor




a palidez se transformou
torpor
agora nova face vem
compor
sem cadência ou melodia
rima
que me faz errante
sina
e sugere notas desconexas
ardente
cada vez que me vejo
constante
e teu corpo de mim
ausente

talvez




talvez me falhe a
memória
por errância ou vontade
própria
talvez eu me falte e me descubra
novamente
dona dos mesmos vícios
e ainda assim
de mim mesma
ausente

Quarteto urbano (IV)




manhã nublada
e chuvosa
como sempre
nos últimos dias
te soube em fase
indecisa
se choves
se esfrias
meu corpo acompanha
teus desejos

Quarteto urbano (III)




catador de papelão
não te sei outra coisa
catas somente
o que outros
largaram mão
deixaram à revelia
e sem regalia
escolhes
escondes
um pouco do teu nome
vais deixando
pelo chão

Quarteto urbano (II)




pauliceia esta
que fiz
desvairada
saiu a reboque
de coisas passadas
e isso de viver
jornadas errantes
me mostra o
quão gigante
pode ser aquele
instante perene
anúncio solene
do que arde
por ser

Quarteto urbano (I)



são paulo
tua cor cinza
em várias nuances
no horizonte
contorce a vista
infinito te miro
ao longe fugaz
e quando teu frio
me abraça
o peito
aqueço o leito
que apenas de um cinza
opaco
jaz(z)

balada de amor e ódio




balada de amor e ódio
tão igual
mas tão sem
propósito
ficar sem meu ócio
habitual
e fazer desse dia
mais um
no meu inferno astral

pergunta




e a fortuna
do devir?
passo calada
e xingo essa alma
espelhada
que não se importa
em / me
ver partir

de vidro



não quebro teu silêncio
de vidro
mas talho
a consciência
com meu sangue
pulsando
quente
silente
sorrateiro
no teu mangue



noite



dois estranhos numa noite escura
e fria
-só não sabia se o frio
vinha de fora
ou era de dentro mesmo

ironia


se eu quisesse o sangue
derramava uma taça
sobre cada viela escura
desta vida
se eu quisesse o sangue
embebia os lábios
na verve límpida
na veia pálida
na esquina dessa
alegria
infame

tato


sem inspiração
olho para o lado
ouço seu retrato
meço meu tato
quase zero
quase nada
tinindo
pulsando ciberneticamente
sem inspiração
você é uma esquina
miragem distante
do caminho
reto
que resolvi trilhar

mensagem




se me calo
constante
é porque meus olhos
falam
gritam
pulsam
e minha boca segue
errante
até você
me notar

mármore



arrancar essas palavras
do fundo
saber dizer com elas
o que me falta na vida
e sentir a sede
em frente ao mar
e gozar no frio
mármore
e fazer calor
mágica
com as mãos

arrancar esse sentimento
náufrago
do mar dos meus olhos
áridos
fazer impossível
mergulho
e voltar
talvez
com pudor obtuso

arrancar esse pudor
intruso
ser sem disfarce
e ter sede
beber
e sentir
sem amar
quebrar o mármore
e ser só calor
com as mãos
e o corpo todo

(In)Concreto




a medida da rotina
des
anda e des
ata
a agonia
a sina
o sim
quem sabe um dia
eu passo
a borracha
eu caço
a fumaça
eu danço
parixara
quem sabe do certo
in
certo?
decerto
de novo?
quem sabe...

paciência


chega de tanto mistério
tanta trapaça
cansei da pirraça
detrás da cortina

chega de tanto suspiro
eu desconfio
por trás do arrepio
há sempre a suspeita
de um leve torpor

chega da mesma cantiga
eu parto é pra briga
minha coragem
é o impulso desmedido
da partida


depois de partido
em mil pedaços
fragmentado pelo desejo
alquebrado da volúpia
insano
instante
depois de tudo
e depois da tristeza
quero te dar meus versos
e esse imenso
desconhecido que sou
o tempo urge
mas não é tarde
vem...

outro




hoje resolvi não me ser
quero me despir de mim
me tornar previsível
sem qualquer artifício
hoje resolvi não me dar
quero desnudar
do que me faz visível
do que me dá propósito
hoje resolvi não me olhar
quero andar errante
e me enxergar no outro
fazer do presente
distante
e do constante
epílogo