ela se atirou no meio de um vácuo chamado solidão. e viu que havia caído dentro de si, e viu que ali só havia imensidão. ela se atreveu a não se mexer. ela se viu convidada a dançar, e pôs-se a girar as mãos, a mover os pés, a fazer da terra e da lua palco e ar. ela se perdeu no início; tampouco se achou no fim. no meio da jornada, seu destino, nem ouro nem prata: marfim. ela, no meio de tantos prenúncios, trocou a cadência da estrela, tirou a areia da ampulheta, distribuiu no mar suas dádivas e no infinito foi mergulhar. ela sentiu dor, sim, sentiu, como tudo que se lhe pudesse ser maior, dormiu esperando não acordar, contando os dias que sabia de cor. ela se fez hábil em esperar por algo oculto, singular, um calor de regresso, uma chama consumindo chão e teto. ela ouviu com cuidado a suave canção arfando no peito ausente decidiu: sonhar de olhos abertos é tão somente aquele sentimento latente que sai por todos os poros, vira o vinho que embriaga, e depois de um pouco passa, igual a tudo que é vivo nasce cresce morre. dia desses talvez ela acorde, e torne a sonhar de novo.
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ResponderExcluiracorda amor
ResponderExcluira corda já está armada
e a arma do tempo
dispara contra um peso morto
não há vinho nem carinho
nesse mundo absorto
em culpa e ilusão
acorda amor
da corda já pende
teu corpo
que torto
nunca será porto
nem mais tocará o chão.
Já acordada, notou que as xícaras não eram inofensivas. Pegou o vibrador amarelo e tentou triturá-las com um sorriso. O café, tinindo, tremia. Era o dia que se anunciava. Convencida de que as xícaras não gozam de solidez, desfez o pacto com os diabos interiores. Era das Dores dia sim, dia não e não se importava com os cacos no chão. Sua vontade era forte e ela pisava firme e resoluta. Quando era puta, dizia o que pensava, quando era bela pensava apenas nela, mas se masturbava com tanta frequencia que não podia ser santa. Suja, a cozinha com o café esparramado, parecia conhecer outras borras de outros tempos. As paredes mendigavam panos úmidos, mas a umidade não era fácil de obter. Ela, indiferença e caos, estrangulava o vibrador contra os cacos das suas manhas. Os pés resolutos e belos, como elos de uma loucura projetada, cansavam-se da monotonia dos cacos. Somente o cheiro de café ainda era excitante. Bebia o caos das expectativas com cheiro de cozinha amanhecida. Havia muitas xícaras no armário. O café tinha acabado.
ResponderExcluirno fim do dia
ResponderExcluircomeu as horas
tomou um banho de café
deitou-se sobre a parede
e se cobriu com as xícaras
quando decidiu continuar
esperando por ele
sabia,
havia desistido
de encontrar, fosse onde fosse
um sentido.