mármore



arrancar essas palavras
do fundo
saber dizer com elas
o que me falta na vida
e sentir a sede
em frente ao mar
e gozar no frio
mármore
e fazer calor
mágica
com as mãos

arrancar esse sentimento
náufrago
do mar dos meus olhos
áridos
fazer impossível
mergulho
e voltar
talvez
com pudor obtuso

arrancar esse pudor
intruso
ser sem disfarce
e ter sede
beber
e sentir
sem amar
quebrar o mármore
e ser só calor
com as mãos
e o corpo todo

(In)Concreto




a medida da rotina
des
anda e des
ata
a agonia
a sina
o sim
quem sabe um dia
eu passo
a borracha
eu caço
a fumaça
eu danço
parixara
quem sabe do certo
in
certo?
decerto
de novo?
quem sabe...

paciência


chega de tanto mistério
tanta trapaça
cansei da pirraça
detrás da cortina

chega de tanto suspiro
eu desconfio
por trás do arrepio
há sempre a suspeita
de um leve torpor

chega da mesma cantiga
eu parto é pra briga
minha coragem
é o impulso desmedido
da partida


depois de partido
em mil pedaços
fragmentado pelo desejo
alquebrado da volúpia
insano
instante
depois de tudo
e depois da tristeza
quero te dar meus versos
e esse imenso
desconhecido que sou
o tempo urge
mas não é tarde
vem...

outro




hoje resolvi não me ser
quero me despir de mim
me tornar previsível
sem qualquer artifício
hoje resolvi não me dar
quero desnudar
do que me faz visível
do que me dá propósito
hoje resolvi não me olhar
quero andar errante
e me enxergar no outro
fazer do presente
distante
e do constante
epílogo

Caos



rasgo todas as folhas
cheias do lirismo vão
que enchem de mentiras
o caos indissoluto
do hoje
cheio de vozes e suspiros
incrédulos do abismo
que
estamos
caindo

Considerações sobre o parto

Para Cecilia e Ana.






Águas. Um mundo tão intrínseco que sequer imaginável. Daí a grande viagem. Separar o que é prazer do que é dor é, desde sempre, tarefa das mais difíceis. Senão impossível. Na verdade o prazer se faz presente unicamente porque não se pode dizer que dói, mas tudo começa com o prazer: o prazer de dar e receber algo que se ama. Não cabe lirismo na realidade; esta se faz de momentos singulares, e estes constroem-se com a percepção que se está vivo e nada mais resta a fazer.
Tudo nasce em líquidos, a vida preparando-se para emergir em um mundo perplexo e que, a pesar de velho, ainda não sabe até onde pode chegar. Tal qual o homem. A grande metáfora da existência ganha seu contorno mais real na forma arredondada de uma mulher, prenha. Cheia de luzes, cheia de sonhos, e muitas vezes cheia de um grande nada. A partir de um crescimento minúsculo desenvolvem-se ideias e ideais, gênios, e uma mistura infinita de DNA com enjôos nada programados, de uma natureza já sensível com o aguçamento da sensibilidade que o estado traz. Afora as incertezas.
Por mais segura que uma mulher seja, ou aparente ser, é nesse momento que ela se encontra com seu mais profundo ser, quando ela tem que se dividir em dois seres, quando ela tem que se transformar, ela mesma, nela mesma, em uma pessoa completamente diferente do que tinha sido até então, e em outro ser que também tem características de outra pessoa. É seu corpo que efetua a gênese da mistura, é seu organismo que mede quanto de si mesma vai ser do outro, e isso é tão natural que inconscientemente ela se doa.
Num piscar de olhos tudo passa. O que era eternidade vira instante e aqueles espaços que nunca existiram vão se adequando para dar lugar a novos presentes, a novos futuros, a uma nova razão, nem sempre racional, mas sempre amada. Se dar. É sobre isso e para isso que a vida cumpre sua função em nós. Parir é antes de qualquer coisa um rasgar de entranhas que transforma em palpável o eterno sublime.


me julgas insana
provoco rumores
incito perjúrio
sinto rancores
escarneço verdades
repito pirraças
aguço mazelas
atiço vontades

Opostos



respiro esta tez
que espreita
minha vida
sem paz
minha veia
salta
pulsa
e feito lousa
te inscrevo
vértice
numa sede voraz

Bilhete


Meninas
desculpem
não dá pra encontrar
vocês hoje.
Aliás, eu não quero.
Não quero ver no outro
o que eu sou
só hoje
ou
sei lá.

Pandora



quero só um dia
ser poupada de olhar
com meus olhos
quero tirar meus olhos
e olhar com os outros
sentidos
todos eles
quero apalpar os fatos
para reconhcê-los
quero ouvir os sons
para sabê-los
quero inspirar saudades
e exalar fagulhas
quero só um dia
ser poupada de abrir
caminhos com as mãos
quero limpar as unhas
olhar
fixamente para elas
pensar
sou eu
quero licença para ser
eu mesma
por favor

Noite Adentro



há os que choram pelos que perderam
eu choro porque me perdi
irremediavelmente
no limbo criado por mim
e para mim
ao redor tudo são
espelhos
espectros

te peço que venhas num cavalo alado
me salvar de mim
cega
olho para o lado
e sempre estivestes aqui
segurando minha mão

Pedaços



um eu que se mostra profundo
disforme
animal cativo
da própria sorte
transpira agonia
na ponta dos dedos

um riso que soa maligno
etéreo
capaz do lascivo
e do eterno
diante do espelho
reflete

uma vida que ascende
e cede
conspira pudores
arfando no peito
anseios
entorpece

um corpo que carrega o mundo
ao mesmo tempo
gravita sem norte
errante
eterno bucolismo
sedento
distante

Flertes



a sequência de poemas abaixo foi uma brincadeira (des)pretenciosa com meu amigo Roberto Mibielli do Pô & Cia.


Bella:

Consumo
essa voraz
agonia

Presumo
sentir extático
poesia

Qualquer que seja
teu desejo
sou tua escrava
pitonisa

Postado por Bella http://isabella-coutinho.blogspot.com/ em 03/04

Mibielli:

Tua escravidão é o que me mantém de pé
Teu fluir pelos cantos,
arrastando correntes
tuas frases gementes
todos os latentes modos de dizer
aprisiona-me que quero a liberdade de pertencer

tua escravidão é o que mantêm
toda a liquidez do lânguido escorrendo
de todo canto que possa alcançar
com gestos bruscos e qualquer brinquedo
sibilante ou não
submarino ou não
que se sinta bem no seu templo
e te faça vibrar como não faz a razão

tua escravidão é o que
me tem feito ainda mais consciente
do que pra mim é o chicote
do teu sentir
prazer
dor
me deixando
cada vez mais servo
da tua escravidão

Publicado por Mibielli http://rmibielli.blogspot.com/em 05/04/2011

Paisagem II



Passo à tua janela e materializo paisagem para teus olhos. Se soubesse antes teu desvelo, cuidava em não te perder, e te fazer sonhar mais, transformar todo o medo, tão grande pesar, em conjugar o verbo amanhecer, contigo. Sinto que toda essa paisagem tenha te cegado ao ponto de não teres visto que também te via, também eras paisagem para mim. Agora quedamos assim,conhecedores de uma nova sina de seguir o que não conhecemos, rumar feito ímãs que se repelem pelos lados semelhantes. Também sinto que podias ter me contado tantas histórias, e podias ter revirado todas as histórias, fazendo delas o enredo que teus olhos não ousaram contar. E poderias, com tua voz, ter escrito claro no negrume que se encheu com a tua ausência. Enquanto disse para que fosses feliz, deveria ter traído toda a confiança que me é inata e deixado transparecer minha vontade não tão grande que tal vaticínio se cumprisse, pelo menos não sem que eu estivesse ao teu lado. Imagino agora que te cercas de temores, agora é tua vez de duvidar. E agora é minha vez de te sonhar. Agora.

Oração



Tira de mim essa paixão pelo impossível.
Tira de mim essa vontade de viver o etéreo
Tira de mim essa força que esconde toda a tristeza que faz minha essência.
Quero ser eu mesma, mesmo que isso seja me dar a conhecer ao mundo.
Só assim serei real, tangível e pura.
Verdadeira.
Amém.

Paisagem



É nessa imensa liberdade que me aferro aos teus desígnios, e me faço (ao mesmo tempo) minha, por não dissociar meu eu da realidade, e tua, porque esta mesma realidade materializa-se no que penso de ti. Pois quando olho para o lado de dentro vejo apenas este quarto vazio. E quando olho ao longe vejo onde teus olhos também pousaram, e me sinto tua. Me faço tua. Por passar sorrateiramente a pensar no que podes pensar e no que veio a pensar outrora. Meus monólogos contigo são dois dedos e duas linhas de prosa que alimentam todas as vãs contagens do tempo. Sorvendo este café que me lembra o amargo da tua ausência: a ambos faço questão de beber sofregamente, quentes, alimentando as janelas abertas da minha alma, sedentas de paisagens, feito esta que olho ao longe. Se passasses pela minha janela eu veria o dia e não mais a ausência –um ocaso. Então não me faria escrava, mas a serva cheia de pudor que se transmuta Sherazade para contar histórias ao ouvido do seu senhor. E me faria senhora de todas as coisas, senhora da tua presença antes imaginada, senhora de uma nova realidade ao alcance da minha voz.