distorcida
a palavra vaga sem saber
significar

na medida
as dores vem e vão
vem em vão

a palavra está dita
resta saber
acreditar


enxergo seu corpo por partes
vejo nos aclives e declives
possibilidades
cada curva: destino
desatino minhas mãos
desenho e escrevo estrada
com os cílios e a ponta
dos
de
dos
meço teus cabelos
meus medos

(a noite me esconde)

algumas coisas não devem ser ditas
nem pensadas na calada
da noite
a voz rouca emudecida

algumas coisas não devem ser ditas
mesmo com a mordaça caída
mãos imóveis sobre a mesa
a vontade contida mal-disfarçada

mesmo a voz rouca
decide não haver mais febre
não quer enxergar no breu
com olhos que não os seus

mesmo o querer ausente
e a vontade
antes rente ao corpo
mirando outro porto

decide plantar um caminho
nas águas: cais
náufrago a esmo
vento vil açoitando a pele
o querer banido no olhar mordaz


meu jeito de fazer silêncio
é dizer coisas assim
um tanto pela metade
um tanto com o olhar
outro tanto me sai pelos dedos
mesmo sem querer

às vezes uso o silêncio pra sussurrar
canto palavras novas
invento e me desconheço

às vezes só amanheço

feito de barro


o homem é feito de barro
e hábito
o homem acostuma
falar sentir fazer olhar
e diz que ama

a necessidade preenche
o vazio do querer do homem
a costela de cerâmica
está oca mas não cabe
(ele não sabe)
o seu sentimento

o hábito faz o homem
homem que escreve
homem que lê
o homem de barro desmancha
na água
(ele não sabe)
do meu sentimento


triste é a sina
de quem chora
não ter o que não sabe
triste é a sina
de quem chora
ter o que não sabe
triste é a sina que
demora
e o momento urge
triste é a sina que
com o tempo melhora
e passa últil
conformidade
triste é a sina que
aparenta paisagem
e é apenas um quadro
na parede sem
janela

consolo



vivo sozinho
rodeado de costumes
respirando o insumo
do que me foi projetado
as vezes sinto mais ou menos
dores
mas calo o cristal
sobre o vidro amordaçado
segue repleta minha vida
de saberes e
dissabores
procurando no fundo
da alma consolo inusitado
até que a fortuna
a nau do que desejo
me navegue por mares
à procura do lampejo
que anda disfarçado


as palavras me salvam
de algo maior
me salvam da morte
me salvam da vida
da minha vida
salvam do deserto
em que me encontro
me salvam do sal
e deixam na boca um gosto de sede
um gosto de oásis
as palavras esta manhã
me acordaram
e fecharam meus olhos
não
eles não são necessários

olhos


grandes olhos que me perseguem
por que iluminam minha noite assim
despertam meus sentidos
pintam de púrpura a noite escura
enxergando o mundo
tom carmim
olhos que convencem
para o caos de uma vida arrebatada
destilam angústia e desistência
olhos que me despertam
de uma alegria falível a certeza
sei que zombam de mim
dia dia noite e dia
sei que dentro da concha
a pérola reside na areia
-no momento do gozo eterno
não são os grandes olhos
mas a distância
que espreita

o fogo passou por aqui
devorando grilhões e correntes
agitou a fera
acordou a serpente
queimou as certezas
e o vício da bonança
arrastado pelo vento
surpreendeu o indômito
lavrado resistente
o fogo atingiu em cheio
as certezas plantadas
em lua crescente
seguiu no rastro
do olhar conciso
do ouvido que anseia
a palavra reprimida
o fogo finalmente cedeu
virou candeia indecisa
sem saber ao certo
se a água do rio à espreita
o apaga ou abriga
tua conversa instiga meu verso
ligeiro
e quando a palavra sai
procuro atrair teu olhar
decerto um tanto fugaz
com uma certa rima
tua pirraça instiga meu verso
sorrateiro
na cadência da voz
que desafina
minha audácia junta palavras
refaz dos cacos a história
desmente o rubor na face traída
inventa alegrias alcoólicas
desmedidas
brinca de bandido detetive assassino sanguinário
até o horário que o sono assola
então brinda à consciência
e à memória
o disfarce blasè da imagem
distorcida

ferida


cada barulho anunciava o fim
iminente
e mesmo os silêncios
que se faziam absurdos
explodiam em rojões
do lado de dentro

cada cano quebrado
cada queda
amortecia a altura
de se sentir deitado
e mesmo a chuva
não escondia o sal
açoitando líquido
a face

por trás do tumor
nem sorte nem morte
a rudeza do espinho
sobre o infinito chão
a dor a chaga o ácido
um corpo vagando
cego
pelo caminho

dois goles de chá
meia dúzia de palavras
e talvez alguns passos
incautos
sobre a poça rasa
espelho feito de lama
algumas outras mentiras
contadas sobre a cama
o chá sobre a mesa: água
quente que dissolve
a calma e a mágoa
de tez em tez
era uma vez

tenho as linhas que cortam a mão
e seguem pela estrada deserta
tenho a sina de um quase
prestes a tudo
antes mesmo que acabe
agora ou talvez
quem sabe não sei
tenho a faca afiada
e migalhas sobre a mesa
tenho esta dilacerada palavra
rumo cego à empreita
tenho o destino cruzado
abraço falido banido
bandido
tenho o desejo alquebrado
açoitando a consciência
tenho as mãos e as linhas pontilhadas
minha destreza e meia certeza
do caminho inteiro


feito essa chuva
que desaba com o céu
sobre as cabeças
feito esta vontade
de correr
como se o corpo não tivesse limite
assim nasce o desejo
com a chuva e com o corpo alquebrado
estendo a toalha no chão
e te convido a tomar
o primeiro
café

enredo


um pedaço de tecido
dá pano suficiente
pra mangas e vestidos
conto histórias bordadas
com a linha do nosso
segredo
o ponto do crochê
o canto da mandinga
por onde alinhavo a sina
desmancho o nó do
enredo

desprezo


te quis
com um pra sempre agarrado
nos olhos
e continuei olhando
somente
pra ver o que vinha depois
se depois do amanhecer
sobraria só um
ou os dois
te amei com vontade de voltar
com vontade de criança
sem motivo razão circunstância
joguei o orgulho no vento
e me vi sem alento
joguei o pudor
a razão
sem medo
e agora vejo o rosto
no espelho
pronto pra ceder o outro lado
da face
pro teu desprezo


lanço uma dinamite
palavra
sobre teu intransponível desejo
ainda assim
incólume
permaneces no invólucro
casulo
que nunca vai
te fazer
voar

trago no peito
as janelas e as portas
necessárias para fugir de mim
agulhas
linhas
necessárias pra tecer uma rede
e dormir
trago no peito
ânsia e vontade
calmaria e tempestade
trago na ponta dos dedos
pudor e paixão
escrevo friamente
o que pulsa arde vibra
a combinação certa de elementos
pode gerar vida
ou entrar em combustão
trago no peito a chave
solução de quem busca alívio
o mundo dentro de mim
meu refúgio
exílio


não vou dizer
que sinto falta das nossas conversas
e da cumplicidade do nosso olhar
das mentiras que contamos
um ao outro
pra acariciar a existência
do insólito
não quero a lembrança cheia de pudor
dos despudorados que fomos
quero o silêncio
o respeito
quero a remota possibilidade
da frieza
e rezar
para que a distância entre nós aumente
não vou dizer
que não sinto falta
que não sinto tua falta
mas digo que não quero
tua amizade forjada
atrás de portas
semicerradas

e se ninguém não nos pede amor?
e se não há
a possibilidade do amor?
do amanhecer
do querer
do sempre esperar?
e se meus ouvidos
estão surdos para quem me chama?
e se quando não vejo
não é porque não quero
mas porque trago na face
olhos cegos?


fiquei com teu cheiro impregnado na memória
a lembrança de querer mais do que devia
fiquei com teu gosto machucando
a minha existência
pelos restos dos meus dias
ansiei saber tua história
e construir pontes que me levassem
na fonte do teu calor
ansiei as conversas que não tivemos
as noites que não dormimos
ansiei pelo meu jeito
de não te entender
só não soube
que tuas escolhas te levaram
pra longe dos anseios que tive
e fiquei desnuda
com a consciência fatigada
de tanto esperar atenta
na sala
tua chegada



as vezes escuto coisas
que não quero ouvir
vejo coisas
que não quero ver
sinto coisas
que não quero sentir
e me revolto contra a minha natureza
mando a paz e a civilidade
pra fora de casa
as vezes só quero esta
pequenina fagulha de revolta
aqui dentro
as vezes só quero não me ser
e chorar lágrimas incontidas
debaixo do chuveiro
as vezes não quero o termo
só o meio
as vezes consigo pisar no chão
outras vezes meus pensamentos
ficam na ponta dos pés
e me deixam de ponta cabeça
as vezes só quero o “as vezes”
outras vezes o sempre me rodeia
desejo que fique
ele nunca se demora
e digo: fique
mas ele anseia outras paragens
outros dias luas
outras paisagens


os excessos que cometo
são só meus
as mentiras que eu me conto
as ciladas que forjo
pra prender os sentidos
os grandes silêncios
o olhar perdido
a lágrima que turva a vista
demora
da
mente
é minha
a tez crispada em arrepio
a espera que não sei viver
o tempo que não me sabe passar
é todo meu este quintal
quando o que sinto só
faz chorar
é todo meu o amor que não me sabe
que não me sente
e que não sinto
é toda minha a ausência
este modo de não saber o que dizer
e de não saber
é todo meu o medo de me saber
a fundo
de me descobrir no meio do mundo
do meu mundo
e de todos os outros


quando deixo o tempo passar
a espera senta do meu lado
toma minhas mãos
com calma
me ensina a restar
a despeito de tudo o que passa
correndo com o vento
e minha vontade quer seguir adiante
ainda assim pouso
os olhos no silêncio
me acrescento à escuridão
anoiteço
para nascer melhor
depois da espera
em outro tempo

pietà


piedade para os meus olhos
senhor
eles querem ter onde pousar
piedade das minhas mãos
cansadas da luta diária
piedade dos meus pés
descalços
sobre toda terra
piedade do que penso
o que penso é maior
que sei
piedade do que sinto
o que sinto é menos
que vivi
piedade do que vivo
pois vivo o que sou
e sou na ampulheta
o grão de areia
que resta
e escorre
sem
piedade


a maturidade me pesa
sobre os olhos
e sob os dedos
correm essas palavras
acidas
a maturidade me corta
sangra a ferida
fere a carne suspeita
e suspira
a maturidade me alcança
feito cegueira
desbrava meu mundo
desespero profundo
para não saber
o que vem adiante
a maturidade me segue
me deseja me almeja
me suga
a maturidade me provoca
me compele
me fecha as portas
me tranca do lado de fora
me deixa hóspede
onde sou anfitriã
me faz assassina bandida
cortesã
a maturidade me paga dobrado
pra ver o mundo do jeito dela
quadrado

retornável


tem gente que se acomoda
com sua vida de plástico
sua rotina de plástico
seu amor de plástico
tem gente que até chora
lágrimas de plástico
tem gente que demora
pra entender
a falta da verdade
em algumas escolhas
tem gente que critica
mas vive dentro de uma bolha
tem gente que ora
chora ora ama
ora implora pra voltar
tem gente que ora
grita ora ri
ora consente e cala
a dor que vibra no peito
e ecoa num silêncio suspeito
tem gente que finge a vida
e tem gente que finge
tem gente que foge

boca


a boca que beija
é a mesma que despede
é a mesma que ri
é a mesma que escarnece
e escancara silencio profundo
a boca que beija
também mente e promete
planos de carnaval
fantasias máscaras
o que não diria
essa boca
de tão banal?
não são mais despedidas
nem risos
nem ironias
a boca que beija
também apodrece palavras
também fere e mata
açoita o corpo sem pena
sem pensar no negrume
que espalha
a boca que beija
me beija e me desarma
e me desama
em frente ao espelho


a mão que cultivava a terra
hoje
de unhas limpas
sem calos ou arranhões
hoje
cultiva sonhos
mesmo que eles apodreçam
e persiste
desenha com tintas e palavras
mesmo que se apaguem
ou fiquem turvos

o que importa
não é sobrar ou restar
é o tempo
o tempo é o que importa
ano após ano
só nos importa o tempo
o tempo de amar

entreaberta


te mostrei o mundo
pelos meus olhos
te mostrei o interior
da minha morada
muito além do quarto
e sala
viste o quintal
e minha rede atada
esperando sonhos
te mostrei o rio
que banha minha aldeia
cardumes e desejos
te mostrei as músicas
trilhas sonoras
dos meus silêncios
te mostrei receitas
poções cheiros
alquimias
te fiz um poema
regado a vinho e licor
te fiz perguntas
te mostrei o início
mas não fui capaz
de perceber
pelas respostas desertas
a porta pela qual saias
entreaberta

floresta

queria te ver chorar
as minhas lágrimas póstumas
flores que enfeitam
altares e lápides
vão me lembrar esse dia
queria ver tua agonia

queria te infligir dor
te beijar os lábios
furiosamente
com rancor
até verter sangue
queria ver teu corpo
rastejar
enquanto te maltrato
inclemente

queria te ouvir falar
sobre arrependimentos
ainda que tarde
ainda que no meu peito
a tal chama que arde
seja centelha
perigosa fagulha de incendiar
a floresta confusa
dos meus sentimentos


trago os olhos cegos
para o que me cerca
trago o desprezo
para o desconsolo
trago a calmaria
para o mar revolto
trago a circunstância
para o enredo
olho de soslaio
pro colo que oferece
aconchego
enxergo no futuro
o desenlace
mesmo a revelia
de outro desfecho
turvo o mar
em sal e sonhos
faço coro com
a ausência
ouso restar
sem abandono

despedida


me despeço
sem esperar
fecho a porta
sem me importar
fingindo querer
sem querer
até que a memória
o pudor a rotina
revelem
que tua boca
não é minha sina


se me falha a razão
busco
no lapso da memória
o motivo para a dor
poesia e solidão
se me falha a razão
conto
de trás pra frente
todos os dias que me
levaram da tua boca
ao rés do chão

se me falham os sentidos
justifico
esta pena que sigo
na certeza do espelho
cada palavra é reflexo
do querer e do desejo
se me falham os sentidos
minha vergonha
teu embaraço
criam abismo
que nem o passo mais altivo
suas viagens
meus livros
conseguem superar

se me falham
os sentidos
a memória
a razão
tiro a máscara da mulher forte
moderna
sem coração
que chora o leite derramado
a vertigem
a calma
poesia e solidão



sorvendo deste vinho
tinto
aqueço a noite escura
que paira do lado de dentro
mando embora
com o vento frio
todo sorriso entre dentes
toda calma premente
reinventando o sabor
frutado meio cítrico ou amargo
deste vinho
reinvento também
o arrepio

fizeste dos meus anseios
escada pros teus desejos
sem pudor ou cautela
me fiz escrava
cativa na tua cela
algemei os punhos
ignorei os sussurros
da razão
inventei castelos
fantasias de era uma vez
tendo a floresta como sombra
de repente da calma
fez-se a penumbra
e me vi só
acorrentada
numa prisão

o que fazer do presépio que anda vazio?
será que ele tem um furo
por onde os sonhos escapam?

o que fazer do corpo
que deixou de querer?
o que fazer da noite
que deixou de acalentar?

o que fazer dos dias
que só passam?

o que fazer das perguntas
que não cessam?

não houve resposta
nem brado ou estribilho

o vento é a dádiva
que passa e não resta dúvida
ou saudade

cedo ou tarde
o vento passa por aqui

privacidade

não invada meu silêncio
me deixe sozinha
não repare meus olhos fundos
cravados na face
eles são meus

não pense sobre mim
tampouco interrompa meu sono
não é um repouso justo
mas é meu

não faça perguntas
não com palavras
não sem elas

me deixe bastar
me deixe restar
me deixe quedar oculta
me deixe cantar a mesma música
me deixe sofrer a mesma dor
a minha dor

não se incomode
não me incomode
não me toque

não invada meus pensamentos
não demarque sua área
à minha volta
não faça território
nem plante bandeira

se deixe assim
longe de mim

a minha maneira é esta.

avesso



te escrevo
para que não saibas
para que não me conheças
para que não me queiras
mesmo com toda
possibilidade se esvaindo
(se é que ela algum dia
existiu)
fui presa fácil
e agora
de asas cortadas
espero o tempo
olho no espelho
sem medo
sem remorso
até que passe

bacante


teu sexo me desvirtua
a consciência
e feito cigano
trilho as eiras
e as beiras do teu engano
sem filosofia
Baco me guia
pelas vinhas
coxas
veredas
teu sexo me inebria

porcelana


tenho sentimentos
finos e delicados
feito porcelana chinesa
mas a vontade que vem de dentro
emana com a fúria do vento
alisa a face
acaricia a incerteza
me livra de toda saudade
cartas sobre a mesa
mesmo com a destreza
aprendida
trago na algibeira
a louça fina que sou feita
por mais que a vida
tente me torcer
sem quebrar eu sigo
solto o cabelo
descalço os pés
encaro os espinhos
e as pedras do caminho
sobre a luz que me aquece
forjo aço e derreto a neve
rasgo as cartas
viro a mesa
destino é moeda
que não mostra a face
é cristal roto
o rosto magro
o desenlace

liturgia


hoje vou confessar
meu culto ao teu corpo
vou rezar em latim
ou em línguas estranhas
e destilar um olhar manhoso
sobre a taça
do teu vinho
vou morder a hóstia
e lamber a ponta dos dedos
um a um
sem modéstia
ou retórica
a minha prática apostólica
é seguir teu cheiro
sem rumo
a despeito de todo pecado



o sentir é sagrado

blasè


quero aprender
a ser blasè
não reparar se tu me olhas
não fazer teatro
nem mise-en-scène
e mesmo que pense
que olhei pra ti
minha resposta será
sempre a mesma:
isso foi déjà vu

mea-culpa


desculpe
o padrão não me serve
não apare as arestas
não siga as setas
nem esconda as pistas
se a forma não encaixa
no modelo pretendido
ela só serve
pro lixo
não quero conserto
nem remédio
nem cirurgia plástica
pra cicatriz
que afaga a face
rota
o caminho d’água
no rosto
meu mapa

do nada


naquela noite
você apareceu do nada
abriu seus segredos
sua caixa de pandora
sem me dar conta
permiti
que você enfiasse a língua
e seu verbo
debaixo do meu travesseiro
do nada
sonhei contigo
aspirei dias e noites
inspirei teu perfume
e te amei
daí você falou
precisar partir
secretamente pensei
que você fez do seu nada
o meu também
sem me dar conta
disse amém
de repente
me vi cheia
e saturada do seu grande
e imenso
vazio
agora suma
e não diga obrigado
de nada

viagem

vai que chega o dia
e minha calmaria
se afoga em lágrimas
pode ser no susto
pode ser no absurdo
ou na alma repentina
vou te ver depois do carnaval
sem confete ou serpentina
mesmo que jure as mentiras não cumpridas
o dia da tua partida
será para mim óbito
e tudo o que pensei
vai se cumprir num evento óbvio
tua viagem
meu degredo
-da vertigem que me corrói as entranhas
não conto a ninguém
segredo
o filho que meu ventre
não quer te dar
e por isso
árido
joga fora
expulsa
re-pele
tua pele
pelos
ao menos
talvez sobrem
vestígios encarnados
-minha carne te abomina

Halloween


te amei e te quis
sem pudor
implorei e menti
fiz cena pra receber
teu carinho explícito
joguei búzios
li cartas
percorri os caminhos da mão
dias a fio
exalando essências raras
acendi velas na sexta feira
vesti tua fantasia
era noite de lua
e eu cheia
de armadilhas

lápide


sinto o veneno percorrendo
o caminho das entranhas
vejo o dia claro escurecer
tendo a certeza
de que cada circunstância
mais banal
cada nota desta música frugal
tocou na vitrola
e não foi ouvida por ninguém
não te ouvi
não te vi
não senti teu olhar
teu desdém
cada pincelada de cor neon
é hoje natureza morta
aqui jaz
tua fama de rapaz bem quisto

meu remédio para teu veneno
é me intoxicar de outros
nem fortes
nem amenos
apenas quero de você
menos

*para Josi