de repente
minhas palavras te cansaram
aquela lenta tortura chinesa
me vertia prazer
pela retina

de repente
percebi o desprazer
que te movia
inadvertidamente para longe

de repente
me vi voltando os passos dados
recolhendo cacos
rasgando papeis
sorvendo bebidas imaginarias
em garrafas vazias

de repente vi que
não era eu ou você
o que se perdia na madrugada
percebi que minha presença
fazia parte da tua jornada

percebi minha sina e tua sorte
o tempo que toma conta
do início da vida até a morte
percebi meu devaneio
e teu pranto

encostei meus lábios no seu ouvido
sim, eu canto

sem destinatário



não soube dizer pra ti
as coisas no dia que aconteceram
não soube mais de ti do que de mim
e esse foi o grande erro
tuas histórias se confundiram
com as lágrimas que derramei
a tempo de ver o tempo passar
conselhos na frente do espelho
e outros tantos motivos de não se falar
os espaços necessários entre a gente
ao contrário de afastar
estreitaram com cada conversa vadia
confessas em mesa de bar
ou crimes que nunca serão levados a cabo

de norte a sul as palavras andam
com destino certo:
no meu coração há um abrigo
para um querer assim, mendigo
de alma sedento e colo para descansar

com carinho imenso para Mirella

borrado


este romance me rendeu
alguns poemas e outras dores de cabeça
durante a madrugada
um pouco de alegria
(mas só o necessário pra saber como é)

este romance me rendeu
mais perguntas que respostas
música e vontade
este romance me mostrou
um pouco do amor dizendo: tarde

este romance de mentira
escapou entre meus dedos
ainda tentei prendê-lo segurando
com os olhos fechados
mas a chuva borrou algumas palavras

o ‘eu gosto de você’
virou ‘eu não gosto tanto assim’
a confissão virou embaraço e ausência
o que era virtual virou consciência

meus olhos turvados reviraram a memória
bordada em pedaços de tecido recortado
o álcool acusou meus olhos
embaçados na noite fria
terem lido pedaço teu
que não existia


hoje provei do seu corpo
mais uma vez
sem pressa lasciva
entendi todos os milímetros
de que é feito

na palma da mão
senti novamente
entre os dedos
teus olhos meus desejos

passeei a língua
sobre teus apelos
sorvi o doce e o amargo
te quis de novo

teu nada completa meu vazio
nesta noite de frio
você me serve

protesto contra essas mãos
que contra minha vontade
escrevem
protesto contra meus pensamentos
que contra a minha vontade
materializam o que sinto
protesto contra meus sentidos
eles não me deixam ser outra
que não eu

protesto contra meus olhos
que enxergam quando só
quero dormir
protesto contra essa música latente
protesto contra a dor silente
certa constante
protesto contra a aridez que me faz deserta
protesto contra o cansaço que me toma
depois de uma noite mal dormida

protesto sem voz
sem a fúria característica dos motins
sem rebeldia sem público sem praça
sem ter nada para provar
protesto sem amor

com a alma crua dorida
com a calmaria que ameaça tempestade
protesto com a lágrima quente
na face fria
avalanche de tudo o que
não podia não queria não devia
mas fiz sem arrepender

protesto sem querer


tudo o que preciso
é de mais um copo
dessa bebida e jazz
baby
traga o jazz e seu corpo
também

tudo o que eu preciso
é de um canto escuro
pra sentar e ouvir de longe
a voz triste e o piano
ali minha alma jaz

não quero amor nem sede
quero jazz sexo
e paz

novamente


hoje um fantasma bateu
na minha porta
contando algumas juras
e outras respostas
me falando de amores vividos
e pedaços de sonhos
partidos sem dó nem piedade

hoje abri a porta novamente
para o abraço do dia certo
e segredos sussurrados
ao pé do ouvido
o olhar de soslaio
e um convite pré-combinado

hoje abri a porta e me vi
de repente
envolvida em braços decadentes
nem amar nem mais mar
não sinto mais nada por você
nem quero

me deixe sair
quero ver o luar

prosa


menino prosa
que bossa comigo
e proseia também
passeia na beira
de tantos momentos
sem nunca se entregar
concordando em tudo
com um ‘amém’
qualquer
me diz
bem ou mal
me quer?

insegura


no fim do dia
quando a lucidez assomar aos
detalhes da despedida
lentamente a sobriedade vai
tomar conta e me dizer:
não é você
cada rima cisma em quedar-se
insegura
meu querer não tem
cura

seja insanidade o que
no meu coração causa alarde
digo repito o que sinto
a pele rota o batom vermelho
na frente do espelho

véspera


algumas tristezas não devem ser divididas
a flor deve:
suas pétalas devem ser rasgadas
e entregues ao vento em oferenda
sua raiz deve se espalhar pela terra
seu único alimento deve ser a chuva

a flor que espera do lado de fora
guarda no ventre histórias
aguarda que o vento a leve
do lado mais distante do hemisfério
a flor aguarda ainda
no fundo do pote de barro em que reside
mistério e vontade
a vontade de dizer: amar

a flor admite não poder seguir só
a flor se põe no lugar da tristeza
sobre a mesa


acostumada que estava
à sua presença invisível
senti parte de mim esmaecer
escorrendo líquida na parede
recém pintada
borrão

inundando meu corpo
transformando em rio
sem conseguir resolver
o misterioso caso da rima
sem solução

a palavra fica solta
como metades
que não se encontram
esperando um par
como olhos marejados
que só sabem inundar

acostumada que estava
com as verdades
inventadas à meia noite
dormia dias a fio
esperando encontrar
a ponta da rima perdida
no meu não saber amar


distorcida
a palavra vaga sem saber
significar

na medida
as dores vem e vão
vem em vão

a palavra está dita
resta saber
acreditar


enxergo seu corpo por partes
vejo nos aclives e declives
possibilidades
cada curva: destino
desatino minhas mãos
desenho e escrevo estrada
com os cílios e a ponta
dos
de
dos
meço teus cabelos
meus medos

(a noite me esconde)

algumas coisas não devem ser ditas
nem pensadas na calada
da noite
a voz rouca emudecida

algumas coisas não devem ser ditas
mesmo com a mordaça caída
mãos imóveis sobre a mesa
a vontade contida mal-disfarçada

mesmo a voz rouca
decide não haver mais febre
não quer enxergar no breu
com olhos que não os seus

mesmo o querer ausente
e a vontade
antes rente ao corpo
mirando outro porto

decide plantar um caminho
nas águas: cais
náufrago a esmo
vento vil açoitando a pele
o querer banido no olhar mordaz


meu jeito de fazer silêncio
é dizer coisas assim
um tanto pela metade
um tanto com o olhar
outro tanto me sai pelos dedos
mesmo sem querer

às vezes uso o silêncio pra sussurrar
canto palavras novas
invento e me desconheço

às vezes só amanheço

feito de barro


o homem é feito de barro
e hábito
o homem acostuma
falar sentir fazer olhar
e diz que ama

a necessidade preenche
o vazio do querer do homem
a costela de cerâmica
está oca mas não cabe
(ele não sabe)
o seu sentimento

o hábito faz o homem
homem que escreve
homem que lê
o homem de barro desmancha
na água
(ele não sabe)
do meu sentimento


triste é a sina
de quem chora
não ter o que não sabe
triste é a sina
de quem chora
ter o que não sabe
triste é a sina que
demora
e o momento urge
triste é a sina que
com o tempo melhora
e passa últil
conformidade
triste é a sina que
aparenta paisagem
e é apenas um quadro
na parede sem
janela

consolo



vivo sozinho
rodeado de costumes
respirando o insumo
do que me foi projetado
as vezes sinto mais ou menos
dores
mas calo o cristal
sobre o vidro amordaçado
segue repleta minha vida
de saberes e
dissabores
procurando no fundo
da alma consolo inusitado
até que a fortuna
a nau do que desejo
me navegue por mares
à procura do lampejo
que anda disfarçado


as palavras me salvam
de algo maior
me salvam da morte
me salvam da vida
da minha vida
salvam do deserto
em que me encontro
me salvam do sal
e deixam na boca um gosto de sede
um gosto de oásis
as palavras esta manhã
me acordaram
e fecharam meus olhos
não
eles não são necessários

olhos


grandes olhos que me perseguem
por que iluminam minha noite assim
despertam meus sentidos
pintam de púrpura a noite escura
enxergando o mundo
tom carmim
olhos que convencem
para o caos de uma vida arrebatada
destilam angústia e desistência
olhos que me despertam
de uma alegria falível a certeza
sei que zombam de mim
dia dia noite e dia
sei que dentro da concha
a pérola reside na areia
-no momento do gozo eterno
não são os grandes olhos
mas a distância
que espreita

o fogo passou por aqui
devorando grilhões e correntes
agitou a fera
acordou a serpente
queimou as certezas
e o vício da bonança
arrastado pelo vento
surpreendeu o indômito
lavrado resistente
o fogo atingiu em cheio
as certezas plantadas
em lua crescente
seguiu no rastro
do olhar conciso
do ouvido que anseia
a palavra reprimida
o fogo finalmente cedeu
virou candeia indecisa
sem saber ao certo
se a água do rio à espreita
o apaga ou abriga
tua conversa instiga meu verso
ligeiro
e quando a palavra sai
procuro atrair teu olhar
decerto um tanto fugaz
com uma certa rima
tua pirraça instiga meu verso
sorrateiro
na cadência da voz
que desafina
minha audácia junta palavras
refaz dos cacos a história
desmente o rubor na face traída
inventa alegrias alcoólicas
desmedidas
brinca de bandido detetive assassino sanguinário
até o horário que o sono assola
então brinda à consciência
e à memória
o disfarce blasè da imagem
distorcida

ferida


cada barulho anunciava o fim
iminente
e mesmo os silêncios
que se faziam absurdos
explodiam em rojões
do lado de dentro

cada cano quebrado
cada queda
amortecia a altura
de se sentir deitado
e mesmo a chuva
não escondia o sal
açoitando líquido
a face

por trás do tumor
nem sorte nem morte
a rudeza do espinho
sobre o infinito chão
a dor a chaga o ácido
um corpo vagando
cego
pelo caminho

dois goles de chá
meia dúzia de palavras
e talvez alguns passos
incautos
sobre a poça rasa
espelho feito de lama
algumas outras mentiras
contadas sobre a cama
o chá sobre a mesa: água
quente que dissolve
a calma e a mágoa
de tez em tez
era uma vez

tenho as linhas que cortam a mão
e seguem pela estrada deserta
tenho a sina de um quase
prestes a tudo
antes mesmo que acabe
agora ou talvez
quem sabe não sei
tenho a faca afiada
e migalhas sobre a mesa
tenho esta dilacerada palavra
rumo cego à empreita
tenho o destino cruzado
abraço falido banido
bandido
tenho o desejo alquebrado
açoitando a consciência
tenho as mãos e as linhas pontilhadas
minha destreza e meia certeza
do caminho inteiro


feito essa chuva
que desaba com o céu
sobre as cabeças
feito esta vontade
de correr
como se o corpo não tivesse limite
assim nasce o desejo
com a chuva e com o corpo alquebrado
estendo a toalha no chão
e te convido a tomar
o primeiro
café

enredo


um pedaço de tecido
dá pano suficiente
pra mangas e vestidos
conto histórias bordadas
com a linha do nosso
segredo
o ponto do crochê
o canto da mandinga
por onde alinhavo a sina
desmancho o nó do
enredo

desprezo


te quis
com um pra sempre agarrado
nos olhos
e continuei olhando
somente
pra ver o que vinha depois
se depois do amanhecer
sobraria só um
ou os dois
te amei com vontade de voltar
com vontade de criança
sem motivo razão circunstância
joguei o orgulho no vento
e me vi sem alento
joguei o pudor
a razão
sem medo
e agora vejo o rosto
no espelho
pronto pra ceder o outro lado
da face
pro teu desprezo


lanço uma dinamite
palavra
sobre teu intransponível desejo
ainda assim
incólume
permaneces no invólucro
casulo
que nunca vai
te fazer
voar

trago no peito
as janelas e as portas
necessárias para fugir de mim
agulhas
linhas
necessárias pra tecer uma rede
e dormir
trago no peito
ânsia e vontade
calmaria e tempestade
trago na ponta dos dedos
pudor e paixão
escrevo friamente
o que pulsa arde vibra
a combinação certa de elementos
pode gerar vida
ou entrar em combustão
trago no peito a chave
solução de quem busca alívio
o mundo dentro de mim
meu refúgio
exílio


não vou dizer
que sinto falta das nossas conversas
e da cumplicidade do nosso olhar
das mentiras que contamos
um ao outro
pra acariciar a existência
do insólito
não quero a lembrança cheia de pudor
dos despudorados que fomos
quero o silêncio
o respeito
quero a remota possibilidade
da frieza
e rezar
para que a distância entre nós aumente
não vou dizer
que não sinto falta
que não sinto tua falta
mas digo que não quero
tua amizade forjada
atrás de portas
semicerradas

e se ninguém não nos pede amor?
e se não há
a possibilidade do amor?
do amanhecer
do querer
do sempre esperar?
e se meus ouvidos
estão surdos para quem me chama?
e se quando não vejo
não é porque não quero
mas porque trago na face
olhos cegos?


fiquei com teu cheiro impregnado na memória
a lembrança de querer mais do que devia
fiquei com teu gosto machucando
a minha existência
pelos restos dos meus dias
ansiei saber tua história
e construir pontes que me levassem
na fonte do teu calor
ansiei as conversas que não tivemos
as noites que não dormimos
ansiei pelo meu jeito
de não te entender
só não soube
que tuas escolhas te levaram
pra longe dos anseios que tive
e fiquei desnuda
com a consciência fatigada
de tanto esperar atenta
na sala
tua chegada



as vezes escuto coisas
que não quero ouvir
vejo coisas
que não quero ver
sinto coisas
que não quero sentir
e me revolto contra a minha natureza
mando a paz e a civilidade
pra fora de casa
as vezes só quero esta
pequenina fagulha de revolta
aqui dentro
as vezes só quero não me ser
e chorar lágrimas incontidas
debaixo do chuveiro
as vezes não quero o termo
só o meio
as vezes consigo pisar no chão
outras vezes meus pensamentos
ficam na ponta dos pés
e me deixam de ponta cabeça
as vezes só quero o “as vezes”
outras vezes o sempre me rodeia
desejo que fique
ele nunca se demora
e digo: fique
mas ele anseia outras paragens
outros dias luas
outras paisagens


os excessos que cometo
são só meus
as mentiras que eu me conto
as ciladas que forjo
pra prender os sentidos
os grandes silêncios
o olhar perdido
a lágrima que turva a vista
demora
da
mente
é minha
a tez crispada em arrepio
a espera que não sei viver
o tempo que não me sabe passar
é todo meu este quintal
quando o que sinto só
faz chorar
é todo meu o amor que não me sabe
que não me sente
e que não sinto
é toda minha a ausência
este modo de não saber o que dizer
e de não saber
é todo meu o medo de me saber
a fundo
de me descobrir no meio do mundo
do meu mundo
e de todos os outros


quando deixo o tempo passar
a espera senta do meu lado
toma minhas mãos
com calma
me ensina a restar
a despeito de tudo o que passa
correndo com o vento
e minha vontade quer seguir adiante
ainda assim pouso
os olhos no silêncio
me acrescento à escuridão
anoiteço
para nascer melhor
depois da espera
em outro tempo

pietà


piedade para os meus olhos
senhor
eles querem ter onde pousar
piedade das minhas mãos
cansadas da luta diária
piedade dos meus pés
descalços
sobre toda terra
piedade do que penso
o que penso é maior
que sei
piedade do que sinto
o que sinto é menos
que vivi
piedade do que vivo
pois vivo o que sou
e sou na ampulheta
o grão de areia
que resta
e escorre
sem
piedade


a maturidade me pesa
sobre os olhos
e sob os dedos
correm essas palavras
acidas
a maturidade me corta
sangra a ferida
fere a carne suspeita
e suspira
a maturidade me alcança
feito cegueira
desbrava meu mundo
desespero profundo
para não saber
o que vem adiante
a maturidade me segue
me deseja me almeja
me suga
a maturidade me provoca
me compele
me fecha as portas
me tranca do lado de fora
me deixa hóspede
onde sou anfitriã
me faz assassina bandida
cortesã
a maturidade me paga dobrado
pra ver o mundo do jeito dela
quadrado

retornável


tem gente que se acomoda
com sua vida de plástico
sua rotina de plástico
seu amor de plástico
tem gente que até chora
lágrimas de plástico
tem gente que demora
pra entender
a falta da verdade
em algumas escolhas
tem gente que critica
mas vive dentro de uma bolha
tem gente que ora
chora ora ama
ora implora pra voltar
tem gente que ora
grita ora ri
ora consente e cala
a dor que vibra no peito
e ecoa num silêncio suspeito
tem gente que finge a vida
e tem gente que finge
tem gente que foge

boca


a boca que beija
é a mesma que despede
é a mesma que ri
é a mesma que escarnece
e escancara silencio profundo
a boca que beija
também mente e promete
planos de carnaval
fantasias máscaras
o que não diria
essa boca
de tão banal?
não são mais despedidas
nem risos
nem ironias
a boca que beija
também apodrece palavras
também fere e mata
açoita o corpo sem pena
sem pensar no negrume
que espalha
a boca que beija
me beija e me desarma
e me desama
em frente ao espelho


a mão que cultivava a terra
hoje
de unhas limpas
sem calos ou arranhões
hoje
cultiva sonhos
mesmo que eles apodreçam
e persiste
desenha com tintas e palavras
mesmo que se apaguem
ou fiquem turvos

o que importa
não é sobrar ou restar
é o tempo
o tempo é o que importa
ano após ano
só nos importa o tempo
o tempo de amar

entreaberta


te mostrei o mundo
pelos meus olhos
te mostrei o interior
da minha morada
muito além do quarto
e sala
viste o quintal
e minha rede atada
esperando sonhos
te mostrei o rio
que banha minha aldeia
cardumes e desejos
te mostrei as músicas
trilhas sonoras
dos meus silêncios
te mostrei receitas
poções cheiros
alquimias
te fiz um poema
regado a vinho e licor
te fiz perguntas
te mostrei o início
mas não fui capaz
de perceber
pelas respostas desertas
a porta pela qual saias
entreaberta

floresta

queria te ver chorar
as minhas lágrimas póstumas
flores que enfeitam
altares e lápides
vão me lembrar esse dia
queria ver tua agonia

queria te infligir dor
te beijar os lábios
furiosamente
com rancor
até verter sangue
queria ver teu corpo
rastejar
enquanto te maltrato
inclemente

queria te ouvir falar
sobre arrependimentos
ainda que tarde
ainda que no meu peito
a tal chama que arde
seja centelha
perigosa fagulha de incendiar
a floresta confusa
dos meus sentimentos


trago os olhos cegos
para o que me cerca
trago o desprezo
para o desconsolo
trago a calmaria
para o mar revolto
trago a circunstância
para o enredo
olho de soslaio
pro colo que oferece
aconchego
enxergo no futuro
o desenlace
mesmo a revelia
de outro desfecho
turvo o mar
em sal e sonhos
faço coro com
a ausência
ouso restar
sem abandono

despedida


me despeço
sem esperar
fecho a porta
sem me importar
fingindo querer
sem querer
até que a memória
o pudor a rotina
revelem
que tua boca
não é minha sina


se me falha a razão
busco
no lapso da memória
o motivo para a dor
poesia e solidão
se me falha a razão
conto
de trás pra frente
todos os dias que me
levaram da tua boca
ao rés do chão

se me falham os sentidos
justifico
esta pena que sigo
na certeza do espelho
cada palavra é reflexo
do querer e do desejo
se me falham os sentidos
minha vergonha
teu embaraço
criam abismo
que nem o passo mais altivo
suas viagens
meus livros
conseguem superar

se me falham
os sentidos
a memória
a razão
tiro a máscara da mulher forte
moderna
sem coração
que chora o leite derramado
a vertigem
a calma
poesia e solidão



sorvendo deste vinho
tinto
aqueço a noite escura
que paira do lado de dentro
mando embora
com o vento frio
todo sorriso entre dentes
toda calma premente
reinventando o sabor
frutado meio cítrico ou amargo
deste vinho
reinvento também
o arrepio

fizeste dos meus anseios
escada pros teus desejos
sem pudor ou cautela
me fiz escrava
cativa na tua cela
algemei os punhos
ignorei os sussurros
da razão
inventei castelos
fantasias de era uma vez
tendo a floresta como sombra
de repente da calma
fez-se a penumbra
e me vi só
acorrentada
numa prisão

o que fazer do presépio que anda vazio?
será que ele tem um furo
por onde os sonhos escapam?

o que fazer do corpo
que deixou de querer?
o que fazer da noite
que deixou de acalentar?

o que fazer dos dias
que só passam?

o que fazer das perguntas
que não cessam?

não houve resposta
nem brado ou estribilho

o vento é a dádiva
que passa e não resta dúvida
ou saudade

cedo ou tarde
o vento passa por aqui

privacidade

não invada meu silêncio
me deixe sozinha
não repare meus olhos fundos
cravados na face
eles são meus

não pense sobre mim
tampouco interrompa meu sono
não é um repouso justo
mas é meu

não faça perguntas
não com palavras
não sem elas

me deixe bastar
me deixe restar
me deixe quedar oculta
me deixe cantar a mesma música
me deixe sofrer a mesma dor
a minha dor

não se incomode
não me incomode
não me toque

não invada meus pensamentos
não demarque sua área
à minha volta
não faça território
nem plante bandeira

se deixe assim
longe de mim

a minha maneira é esta.