fiquei com teu cheiro impregnado na memória
a lembrança de querer mais do que devia
fiquei com teu gosto machucando
a minha existência
pelos restos dos meus dias
ansiei saber tua história
e construir pontes que me levassem
na fonte do teu calor
ansiei as conversas que não tivemos
as noites que não dormimos
ansiei pelo meu jeito
de não te entender
só não soube
que tuas escolhas te levaram
pra longe dos anseios que tive
e fiquei desnuda
com a consciência fatigada
de tanto esperar atenta
na sala
tua chegada



as vezes escuto coisas
que não quero ouvir
vejo coisas
que não quero ver
sinto coisas
que não quero sentir
e me revolto contra a minha natureza
mando a paz e a civilidade
pra fora de casa
as vezes só quero esta
pequenina fagulha de revolta
aqui dentro
as vezes só quero não me ser
e chorar lágrimas incontidas
debaixo do chuveiro
as vezes não quero o termo
só o meio
as vezes consigo pisar no chão
outras vezes meus pensamentos
ficam na ponta dos pés
e me deixam de ponta cabeça
as vezes só quero o “as vezes”
outras vezes o sempre me rodeia
desejo que fique
ele nunca se demora
e digo: fique
mas ele anseia outras paragens
outros dias luas
outras paisagens


os excessos que cometo
são só meus
as mentiras que eu me conto
as ciladas que forjo
pra prender os sentidos
os grandes silêncios
o olhar perdido
a lágrima que turva a vista
demora
da
mente
é minha
a tez crispada em arrepio
a espera que não sei viver
o tempo que não me sabe passar
é todo meu este quintal
quando o que sinto só
faz chorar
é todo meu o amor que não me sabe
que não me sente
e que não sinto
é toda minha a ausência
este modo de não saber o que dizer
e de não saber
é todo meu o medo de me saber
a fundo
de me descobrir no meio do mundo
do meu mundo
e de todos os outros


quando deixo o tempo passar
a espera senta do meu lado
toma minhas mãos
com calma
me ensina a restar
a despeito de tudo o que passa
correndo com o vento
e minha vontade quer seguir adiante
ainda assim pouso
os olhos no silêncio
me acrescento à escuridão
anoiteço
para nascer melhor
depois da espera
em outro tempo

pietà


piedade para os meus olhos
senhor
eles querem ter onde pousar
piedade das minhas mãos
cansadas da luta diária
piedade dos meus pés
descalços
sobre toda terra
piedade do que penso
o que penso é maior
que sei
piedade do que sinto
o que sinto é menos
que vivi
piedade do que vivo
pois vivo o que sou
e sou na ampulheta
o grão de areia
que resta
e escorre
sem
piedade


a maturidade me pesa
sobre os olhos
e sob os dedos
correm essas palavras
acidas
a maturidade me corta
sangra a ferida
fere a carne suspeita
e suspira
a maturidade me alcança
feito cegueira
desbrava meu mundo
desespero profundo
para não saber
o que vem adiante
a maturidade me segue
me deseja me almeja
me suga
a maturidade me provoca
me compele
me fecha as portas
me tranca do lado de fora
me deixa hóspede
onde sou anfitriã
me faz assassina bandida
cortesã
a maturidade me paga dobrado
pra ver o mundo do jeito dela
quadrado

retornável


tem gente que se acomoda
com sua vida de plástico
sua rotina de plástico
seu amor de plástico
tem gente que até chora
lágrimas de plástico
tem gente que demora
pra entender
a falta da verdade
em algumas escolhas
tem gente que critica
mas vive dentro de uma bolha
tem gente que ora
chora ora ama
ora implora pra voltar
tem gente que ora
grita ora ri
ora consente e cala
a dor que vibra no peito
e ecoa num silêncio suspeito
tem gente que finge a vida
e tem gente que finge
tem gente que foge

boca


a boca que beija
é a mesma que despede
é a mesma que ri
é a mesma que escarnece
e escancara silencio profundo
a boca que beija
também mente e promete
planos de carnaval
fantasias máscaras
o que não diria
essa boca
de tão banal?
não são mais despedidas
nem risos
nem ironias
a boca que beija
também apodrece palavras
também fere e mata
açoita o corpo sem pena
sem pensar no negrume
que espalha
a boca que beija
me beija e me desarma
e me desama
em frente ao espelho


a mão que cultivava a terra
hoje
de unhas limpas
sem calos ou arranhões
hoje
cultiva sonhos
mesmo que eles apodreçam
e persiste
desenha com tintas e palavras
mesmo que se apaguem
ou fiquem turvos

o que importa
não é sobrar ou restar
é o tempo
o tempo é o que importa
ano após ano
só nos importa o tempo
o tempo de amar

entreaberta


te mostrei o mundo
pelos meus olhos
te mostrei o interior
da minha morada
muito além do quarto
e sala
viste o quintal
e minha rede atada
esperando sonhos
te mostrei o rio
que banha minha aldeia
cardumes e desejos
te mostrei as músicas
trilhas sonoras
dos meus silêncios
te mostrei receitas
poções cheiros
alquimias
te fiz um poema
regado a vinho e licor
te fiz perguntas
te mostrei o início
mas não fui capaz
de perceber
pelas respostas desertas
a porta pela qual saias
entreaberta

floresta

queria te ver chorar
as minhas lágrimas póstumas
flores que enfeitam
altares e lápides
vão me lembrar esse dia
queria ver tua agonia

queria te infligir dor
te beijar os lábios
furiosamente
com rancor
até verter sangue
queria ver teu corpo
rastejar
enquanto te maltrato
inclemente

queria te ouvir falar
sobre arrependimentos
ainda que tarde
ainda que no meu peito
a tal chama que arde
seja centelha
perigosa fagulha de incendiar
a floresta confusa
dos meus sentimentos


trago os olhos cegos
para o que me cerca
trago o desprezo
para o desconsolo
trago a calmaria
para o mar revolto
trago a circunstância
para o enredo
olho de soslaio
pro colo que oferece
aconchego
enxergo no futuro
o desenlace
mesmo a revelia
de outro desfecho
turvo o mar
em sal e sonhos
faço coro com
a ausência
ouso restar
sem abandono

despedida


me despeço
sem esperar
fecho a porta
sem me importar
fingindo querer
sem querer
até que a memória
o pudor a rotina
revelem
que tua boca
não é minha sina


se me falha a razão
busco
no lapso da memória
o motivo para a dor
poesia e solidão
se me falha a razão
conto
de trás pra frente
todos os dias que me
levaram da tua boca
ao rés do chão

se me falham os sentidos
justifico
esta pena que sigo
na certeza do espelho
cada palavra é reflexo
do querer e do desejo
se me falham os sentidos
minha vergonha
teu embaraço
criam abismo
que nem o passo mais altivo
suas viagens
meus livros
conseguem superar

se me falham
os sentidos
a memória
a razão
tiro a máscara da mulher forte
moderna
sem coração
que chora o leite derramado
a vertigem
a calma
poesia e solidão



sorvendo deste vinho
tinto
aqueço a noite escura
que paira do lado de dentro
mando embora
com o vento frio
todo sorriso entre dentes
toda calma premente
reinventando o sabor
frutado meio cítrico ou amargo
deste vinho
reinvento também
o arrepio

fizeste dos meus anseios
escada pros teus desejos
sem pudor ou cautela
me fiz escrava
cativa na tua cela
algemei os punhos
ignorei os sussurros
da razão
inventei castelos
fantasias de era uma vez
tendo a floresta como sombra
de repente da calma
fez-se a penumbra
e me vi só
acorrentada
numa prisão

o que fazer do presépio que anda vazio?
será que ele tem um furo
por onde os sonhos escapam?

o que fazer do corpo
que deixou de querer?
o que fazer da noite
que deixou de acalentar?

o que fazer dos dias
que só passam?

o que fazer das perguntas
que não cessam?

não houve resposta
nem brado ou estribilho

o vento é a dádiva
que passa e não resta dúvida
ou saudade

cedo ou tarde
o vento passa por aqui

privacidade

não invada meu silêncio
me deixe sozinha
não repare meus olhos fundos
cravados na face
eles são meus

não pense sobre mim
tampouco interrompa meu sono
não é um repouso justo
mas é meu

não faça perguntas
não com palavras
não sem elas

me deixe bastar
me deixe restar
me deixe quedar oculta
me deixe cantar a mesma música
me deixe sofrer a mesma dor
a minha dor

não se incomode
não me incomode
não me toque

não invada meus pensamentos
não demarque sua área
à minha volta
não faça território
nem plante bandeira

se deixe assim
longe de mim

a minha maneira é esta.

avesso



te escrevo
para que não saibas
para que não me conheças
para que não me queiras
mesmo com toda
possibilidade se esvaindo
(se é que ela algum dia
existiu)
fui presa fácil
e agora
de asas cortadas
espero o tempo
olho no espelho
sem medo
sem remorso
até que passe

bacante


teu sexo me desvirtua
a consciência
e feito cigano
trilho as eiras
e as beiras do teu engano
sem filosofia
Baco me guia
pelas vinhas
coxas
veredas
teu sexo me inebria

porcelana


tenho sentimentos
finos e delicados
feito porcelana chinesa
mas a vontade que vem de dentro
emana com a fúria do vento
alisa a face
acaricia a incerteza
me livra de toda saudade
cartas sobre a mesa
mesmo com a destreza
aprendida
trago na algibeira
a louça fina que sou feita
por mais que a vida
tente me torcer
sem quebrar eu sigo
solto o cabelo
descalço os pés
encaro os espinhos
e as pedras do caminho
sobre a luz que me aquece
forjo aço e derreto a neve
rasgo as cartas
viro a mesa
destino é moeda
que não mostra a face
é cristal roto
o rosto magro
o desenlace

liturgia


hoje vou confessar
meu culto ao teu corpo
vou rezar em latim
ou em línguas estranhas
e destilar um olhar manhoso
sobre a taça
do teu vinho
vou morder a hóstia
e lamber a ponta dos dedos
um a um
sem modéstia
ou retórica
a minha prática apostólica
é seguir teu cheiro
sem rumo
a despeito de todo pecado



o sentir é sagrado

blasè


quero aprender
a ser blasè
não reparar se tu me olhas
não fazer teatro
nem mise-en-scène
e mesmo que pense
que olhei pra ti
minha resposta será
sempre a mesma:
isso foi déjà vu

mea-culpa


desculpe
o padrão não me serve
não apare as arestas
não siga as setas
nem esconda as pistas
se a forma não encaixa
no modelo pretendido
ela só serve
pro lixo
não quero conserto
nem remédio
nem cirurgia plástica
pra cicatriz
que afaga a face
rota
o caminho d’água
no rosto
meu mapa

do nada


naquela noite
você apareceu do nada
abriu seus segredos
sua caixa de pandora
sem me dar conta
permiti
que você enfiasse a língua
e seu verbo
debaixo do meu travesseiro
do nada
sonhei contigo
aspirei dias e noites
inspirei teu perfume
e te amei
daí você falou
precisar partir
secretamente pensei
que você fez do seu nada
o meu também
sem me dar conta
disse amém
de repente
me vi cheia
e saturada do seu grande
e imenso
vazio
agora suma
e não diga obrigado
de nada

viagem

vai que chega o dia
e minha calmaria
se afoga em lágrimas
pode ser no susto
pode ser no absurdo
ou na alma repentina
vou te ver depois do carnaval
sem confete ou serpentina
mesmo que jure as mentiras não cumpridas
o dia da tua partida
será para mim óbito
e tudo o que pensei
vai se cumprir num evento óbvio
tua viagem
meu degredo
-da vertigem que me corrói as entranhas
não conto a ninguém
segredo
o filho que meu ventre
não quer te dar
e por isso
árido
joga fora
expulsa
re-pele
tua pele
pelos
ao menos
talvez sobrem
vestígios encarnados
-minha carne te abomina

Halloween


te amei e te quis
sem pudor
implorei e menti
fiz cena pra receber
teu carinho explícito
joguei búzios
li cartas
percorri os caminhos da mão
dias a fio
exalando essências raras
acendi velas na sexta feira
vesti tua fantasia
era noite de lua
e eu cheia
de armadilhas

lápide


sinto o veneno percorrendo
o caminho das entranhas
vejo o dia claro escurecer
tendo a certeza
de que cada circunstância
mais banal
cada nota desta música frugal
tocou na vitrola
e não foi ouvida por ninguém
não te ouvi
não te vi
não senti teu olhar
teu desdém
cada pincelada de cor neon
é hoje natureza morta
aqui jaz
tua fama de rapaz bem quisto

meu remédio para teu veneno
é me intoxicar de outros
nem fortes
nem amenos
apenas quero de você
menos

*para Josi


quero te amar com pressa
desentranhando a vontade
mundo afora
no corpo
a demora do sentir
do fazer mais que absurdo
quero te amar com ardor
sem pudor ou coisa que o valha
quero meu querer bem rente
da tua boca
quero isso e mais fundo
expandir teu lado obtuso
sem medida
sem verdade
minando o desejo
cansando a resistência
quero todo fingimento
toda aparência jogada no chão
entre as roupas
não sei querer outra coisa
mas sei fingir
que não quero


ser um igual aos outros
ser sem distinção
sem raça
paradeiro
ou bolso onde guardar tostão
tout la même chose
batida quando soa junto
não importa se tambor
ou pandeiro
quando irrita é barulho
da trabalho pro orgulho
admitir o que foi bom
pra quem é cego surdo ou mudo
tout la même chose
um dia é igual ao outro
o outro que começa
onde o um finda
quando o agora
não deixou de ser ainda
não é diferente
o frevo o mambo
do pé em fevereiro sambando
não é diferente
a história que começou
da que está pra terminar
não importa se kitsch ou noir
pra mim é tudo igual
você é igual
tout la même chose

cada um esconde o que deve
de si ou de outro
só mostra a parte mais simples
porque assim deve ser
eu só revelo o que
o outro vê
feito espelho d’água
a imagem refletida
não mostra chegada
só partida
e fica turva
a cada sopro mínimo
do vento que graceja

cada um deve a ninguém
o retrato que quiser mostrar
a dor que quiser mentir
ou gritar

cada um deve para si
a inverdade do enredo
ou a rede e o sossego
ver no retrato sugestivo
a fronte calma
olhar passivo
no fundo da calmaria
a súplica do que é tarde
no berço da compostura
tempestade

pintura


quero ser o amor de Chagall
aquela por quem
o silêncio, feito cor
respira
quero ser a dona dos olhos
imensos
ver o sentimento
refletido feito espelho
na tela
cura para minha doença
quero ser o amor colorido
a alma que espreita
e sussurra
sedenta
tua metade
meu corpo, o teu
face a face
saber que sou eu
quem sou eu
teu amor
Chagall


quando te amei pela primeira vez
ficou o gosto amargo da ausência
fingi que não te conhecia
pelos dias que passamos
os minutos corriam
você corria
mas o que se aproximava
era calmaria

quando te amei depois
quis me enganar que havia
lembranças dos dois
fingi não ver tua indiferença
não havia frio nem calor
só vontade de voltar
aos primeiros dias
ao primeiro ardor

quando te amei outro tempo
ainda mais distante
jurei que seria só
seria aquele momento
somente mais um instante
fingi não entender teus clichês
tampouco quis dizer
porquês e outras mentiras

quando não te amar mais
será enfim, o tempo da minha paz
o tempo de esquecer
que sempre te conheci
que tua ausência fez
sentido, nos longos dias
nos dias idos
caço sentido pra essa história
que vai acabar esquecida
na gaveta, no caos oculto
da memória


vou calar
para não dizer o impreciso
para não mentir o que preciso
vou deixar que os olhos digam
que os pés sigam teu rastro
na ponta no lápis
na noite escura
e o som da viola sem cura
a dor que se aproxima
só cabe em rimas
ou outra maneira
de falsear a verdade
ainda que tarde a razão
no lugar do sim
eu digo não, minto
escrevo o que cabe no agora
no momento, na chuva
não cabe tormento
não cabem folhas despedaçadas
pelo vento, nem lá fora
nem aqui dentro
por ora



temos a idade de amar
a idade e o tempo
que o amor nos dá
é sempre cedo
é sempre tarde
quando a cama urge
quando o corpo arde
quando a vida mistura
dia noite dia
meu corpo escreve
com o teu
poesia

quem sabe até novembro
e se depois
nem me lembro
quem sabe quanto
tempo, tanto tempo
quem sabe a hora
que o medo cresce
ninguém sabe
nem quer ver
o lado certo da mentira
a calça puída do avesso
o pretérito mais que perfeito
ninguém sabe direito
ninguém sabe torto
quando o espelho mostra o ogro
mostra a dor que cura
o receio de partir sem voltar
sem pudor de sentir
sem vergonha de chorar
quem sabe?

minto quem sou quem fui
conto falsos segredos
dedilho inverdades
e teço o enredo
do meu jeito

finjo onde estou onde fui
me faço vontade onde
a verdade rui
desfaço o dedo do gatilho
aponto o riso sem graça

sinto o que sou sem orgulho
deixo a fagulha
espalhar sobre palha
grão de areia
perdida na praia

escrevo sobre pedras
desatino sobre o chão
escalo paredes
dinamito a coerência
me faço ausência onde
sobra exagero

não nego
malícia ou despudor
não meço
esforço de ser
torço o nariz
sem esperar pelo instante
sinto tudo
cada segundo
por um triz



dois corpos em contraste
o desejo de um
completa o outro
que arde
jogo sem cartas
peças em movimento
distância racional
é tormento
dois corpos fora da lei
pode ser crime, talvez
mover as peças
sem ligar pras regras
do xadrez?
pode ser crime, se
uma das partes
vencer sem xeque-mate?

cama


não quero mais a cama
só a cama
quero todo o resto
que não tenho
e penso que podes dar
seja aqui
ou em qualquer lugar
não quero mais a cama
e seu falso conforto
quero chão tapete
corredor e liberdade
de decifrar teu enigma
todos os dias

Fecho a janela da frente
para que o olhar estranho
permaneça lá fora
permaneça estranho
tampouco abro a porta
para cada pedaço
da curiosa novidade
do cotidiano
não quero olhares
não quero tato, pele, pelo
quero a surdez
quero a ausência simples
quero a decisão certa
e o desejo de não voltar atrás.

desista.


desista
de ir tão longe, fundo
de cravar as unhas na
liquidez do mundo
desista
de seguir a trilha, meta
de ter certezas como cartas
postas sobre a mesa
desista
de romper com o beijo esperado
e ver o dia amanhecer
junto com o escárnio
desista
você não tem coragem
de queimar, com a ponta do cigarro
toda essa paisagem que passa
pela janela do carro
enquanto seguro sua mão
não
diga
não
insista
desista.

se tua poesia
é uma alegria concreta
então a merda que encerra
o meu, o nosso ato
vale o sorriso e o escarro

se tua merda
essa poesia concreta
externa uma voz incerta
passe por qualquer brecha
que a vontade permitir
seja o gozo, seja o ganir
sem qualquer traço de humanidade
eloquência ou perversidade
revelam que na orgia reside
a minha sanidade


*Poema feito em resposta ao poema Se tua alegria de Felipe Braga no blog opoemameu.blogspot.com

dois lados da moeda


dois lados da moeda
quando jogados pra cima
repartem em metades
o que sinto inteiro
escolha feita pelo acaso
de repente um é certo
o outro embaraço
dois lados da moeda
se cara, a máscara esconde
se coroa, não se vê
nem se sabe onde
ir, querer, chegar
em qual colo dormir
qual amor amar
dois lados da moeda
não existe escolha certa
nem toalha quente que se jogue
sobre a dor ainda latente
dois lados da moeda
um é a fuga, o outro é a certeza
do carinho sob a coberta
dois lados da moeda
o vinho derramado sobre a mesa
rompe o desejo da espera
nem sempre os dois lados
são da mesma moeda
trilhar o caminho de dentro
voltar à casa que não conheço
pisar por sobre toda pedra
percorrer os caminhos de terra
rios que nascem ao contrário e chovem

sem querer arrancar os pés de mato
que crescem e tomam o caminho
assumo ser espinho
vantagem de quem (se) protege
áspera folha do lavrado

o trajeto de volta nunca é o mesmo
desmerece a consciência agredida
em cada instância, e ainda assim
nascida debaixo de chuvas torrenciais
rios que nascem ao contrário e choram

chuva sempre vira cachoeira
pó, e pede pra assentar a poeira
acalentar a menina, que ainda sonha
ainda dança e lê, meio enganada
meio enleada. chove
e chora.

metade

vou te deixar sair de mansinho
como entrou
vou te contar que esqueci
o que, baixinho
ao pé do ouvido
você me contou
e ficar com todas as vezes inteiras
dos pedaços que você partiu
e repartir a sensação de felicidade
como quem dá o pão ao pobre
quem sabe,talvez sobre
um pouco pra mim

vá saindo devagar
não me acorde
saia de mansinho
levando seus vestígios
a lembrança do carinho seco
o olhar mordaz
e todas as palavras que
um dia fui capaz, não mais
arrume suas coisas
sem fazer barulho
coloque seu orgulho na mala
recolha seus pertences da sala
e suma. pela janela, pela porta
ou qualquer fresta
não deixe pegadas
nem apare as arestas
agora é sua chance. saia
cada minuto urge sua partida
sem choros amargos ou despedidas
me deixe ser senhora
deste quarto desta vida.
feche a porta com cuidado
a caixa de pandora está aberta
cada lembrança deserta, em silêncio
silêncio.

sim, me tornei a megera
a negra peste que aprisiona e mata
a vadia que depois do gozo
repele e devolve a grana
e ainda assim jura que ama

sim, me tornei a interesseira
a que escolhe a dedo sua vítima
a que acolhe, apenas
pelo prazer fugaz
o rapaz que mais oferecer

sim, me tornei a sábia
destilo palavras feito veneno
e te cativo com a minha fruta
rubra, meu latim exótico
meu léxico tóxico

quero agora uma vítima
que vai urdir por toda maldade
por cada pedaço da insanidade
que sou feita. quero agora
vem na minha cama
e deita


depois de quase afogar
quase morrer
quase expirar
me abandono de ti
e confesso todos os
despudores que sou feita
toda ultrajante melodia
que soou feia aos meus ouvidos
canto para que me ames
e me queira com tudo o que não presta
com todo desejo que resta
sem música sem poesia
sem a nostalgia da foto antiga na parede
sem o álcool e sem o fumo
só este barco sem rumo
à deriva de qualquer lua ou serra

o desejo
é um vilão que atormenta o destino
e faz de cada roda tranquila
a pedra do desatino
que embola o fio da meada
e dá o nó cego do caminho
o desejo
é o vilão da carochinha
é quem assalta as noites insones
e foge sem lenço e sem fome
o desejo desconhece a dor
do homem que, preso
aflige inerte a lida sem nome
desfaz do barro a costela
corre com alma nua
pela estrada que se agiganta
numa tela